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Jean Wyllys

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Quem tem a palavra dos mortos?

UOL Noticias

05/11/2019 10h01

Reprodução

Entre as notícias sobre a explícita e inconteste degeneração das investigações acerca da encomendada execução de Marielle Franco (na qual Anderson Gomes também morreu assassinado), uma me chamou a atenção em particular e me fez refletir sobre as formas sutis, mas não menos danosas de violência perpetrada pelo Estado, e sobre a delicada questão de a quem pertence a palavra dos mortos: o fato de os pais da vereadora, dona Marinete e seu Francisco da Silva, e a esposa do motorista, Ágatha Reis, terem lamentado a saída da promotora bolsonarista, Carmen Eliza Bastos, do caso.

Por quê?

Como já se sabe, a promotora é membro da seita política –eivada de elementos das seitas religiosas, em especial das seitas cristãs fundamentalistas neopentecostais– que se formou em torno de Bolsonaro, e exibiu publicamente e sem qualquer conflito ético esta identificação em suas redes sociais . Não bastasse este fato, que , por si só, já torna suspeita sua participação numa investigação sobre um duplo homicídio que envolve a família de seu ídolo, Carmen Eliza Bastos tem, em sua trajetória no Ministério Público do Rio de Janeiro, tomado decisões que deveriam, no mínimo, apavorar os familiares dos mortos.

Por exemplo, a promotora arquivou o Caso Amarildo, aquele do pedreiro torturado e assassinado por policiais militares que também deram fim ao seu corpo. Além disso, Carmen Eliza Bastos também pediu a libertação de dois policiais militares flagrados em video executando sumariamente uma pessoa desarmada e deitada no chão –policiais já investigados por outras dezenas de assassinatos de civis, inclusive de uma criança, em operações. Para completar, a promotora diz odiar "esquerdopatas", termo pejorativo utilizado pelos fascistas da classe média brasileira para se referir às pessoas que estão filiadas a partidos de esquerda e ou militam pelos direitos humanos, como era o caso de Marielle Franco.

Sendo assim, o que levaria seu Francisco e dona Marinete a lamentar o afastamento dessa sujeita das investigações que buscam descobrir quem mandou matar sua filha e por quê?

Com todo respeito e carinho que tenho pela família de Marielle Franco –e durante o tempo em que presidi a Comissão Parlamentar Externa que acompanhou por quase um ano as investigações sobre o assassinato da vereadora do PSOL eu sempre fiz questão de ouvir seus familiares e ser transparente com eles– eu ouso dizer que eles estavam sendo seduzidos e, portanto, enganados pela promotora. Por extensão, pelo Ministério Público do Rio.

É importante relembrar –e eu aconselho a imprensa brasileira a ler o relatório que a Comissão Externa produziu, sendo o relator o deputado Glauber Braga– que o envolvimento do Ministério Público do Rio de Janeiro nas investigações da execução de Marielle Franco só se deu meses depois do ocorrido e por pressão dessa comissão e da Anistia Internacional. Da mesma forma que a instituição só "periciou" a gravação que indica o envolvimento de Bolsonaro no assassinato da vereadora depois que o Jornal Nacional a trouxe a público, ela só se envolveu nas investigações depois de pressionada. Até então, estava negligenciando o brutal assassinato político. E quando entrou em campo apresentou a tese fajuta do crime de ódio, como se a morte de Marielle não estivesse relacionada com a atuação das facções políticas (inclusive as facções criminosas) que disputavam o legado do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016.

O fato de os pais da vereadora lamentarem o afastamento de Carmen Bastos das investigações é a prova de que eles estão sendo vítimas de outra violência por parte do sistema que matou sua filha. E eles não fazem nem sequer ideia desta violência.

São pessoas que perderam uma filha. Mas que ainda não têm a noção clara do que ela fazia ou representava. Não têm ideia completa do jogo para cujo fim ou alteração a memória de sua filha assassinada é tão importante (e a prova dessa falta de entendimento e vulnerabilidade é o fato de, após muita gente ficar perplexa ante a notícia do seu lamento, a família ter tomado nova posição). Pensam primeiro –e não sem suas razões– na perda pessoal. E é a partir dessa questão privada que agentes públicos que não desejam a elucidação do crime tentam manipulá-las.

O Estado poderia e deveria estar ao lado dos familiares de Marielle Franco e Anderson Gomes na busca por justiça e reparação em relação ao assassinatos de ambos por sicários a serviços de organizações criminosas e facções políticas. Mas não está porque o próprio Estado está infestado, como um móvel de madeira por cupins, pelas organizações criminosas que mataram seus entes queridos, e, agora, de dentro do Estado, e se valendo dos próprios recursos deste, tentam prejudicar as investigações, inclusive assediando seus (de Marielle e Anderson) familiares.

Trata-se de uma estratégia por parte dessas organizações criminosas que infestam o Estado com a qual é difícil pra a gente de esquerda e progressista lidar, pois a estratégia implica usar a autoridade moral e a dor das vítimas contra aqueles e aquelas pessoas que lhes são real e honestamente solidários. Quem tem mais autoridade para falar em nome dos mortos e pelos mortos? É essa a questão que os representantes das organizações criminosas nas instituições do Estado colocam em cena ao seduzirem os parentes de suas vítimas.

Lembro-me da polícia de São Paulo anunciando que não iria investigar os indícios evidentes de um assassinato motivado por homofobia porque a família havia reconhecido que se tratou de "suicídio". Quase o mesmo se passou em relação ao assassinato do estudante da Facom (Faculdade de Comunicação) da UFBA (Universidade Federal da Bahia), em que o delegado se recusou a abrir a linha de investigação de crime motivado por homofobia porque a família não reconhecia a homosexualidade do filho. Os ativistas do movimento LGBT sabemos o quanto a autoridade das famílias sobre os mortos na maioria dos casos acaba por prejudicar os esforços para punir seus assassinos.

A essa altura, principalmente Marielle Franco não é apenas a filha de dona Marinete e seu Francisco da Silva, irmã de Anielle, mãe de Luyara e esposa de Monica Benício. Ela tampouco é apenas a vereadora do PSOL do Rio Janeiro. Se há algo de maravilhoso e potente no enredo de 2019 da escola de samba Mangueira é o fato de o carnavalesco Leandro Vieira ter se dado conta disso e decidido dizer isso em poderosas alegorias acompanhadas do refrão: "Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, Malês".

Marielle representa todos as pessoas mortas historicamente pelas mesmas forças políticas que a executaram – e não só no Brasil, que fique claro. Ela virou um símbolo global das vítimas da necropolítica em todos os países do mundo em que esta se manifestou e se manifesta, principalmente daquelas vítimas que resistem a esta necropolítica, em todos os sentidos da palavra resistência.

Sendo assim, é imperativo fazermos justiça em relação aos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes; é imperativo não deixarmos que as forças políticas e criminosas que os eliminaram enganem seus familiares e os coloquem a seu favor sem que saibam disso; é fundamental não permitir o silenciamento da palavra dos mortos pela manipulação da ingenuidade e vulnerabilidade dos seus parentes vivos.

É nosso dever –nós que, como Marielle em vida e agora também depois de morta, fazemos oposição a essas forças– amparar os familiares das vítimas simbólicas também nesse âmbito subjetivo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.