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Jean Wyllys

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Eu acuso o presidente da República

UOL Noticias

19/06/2019 18h59

O ministro Sergio Moro ao lado do apresentador Ratinho, no programa do SBT (GABRIEL CARDOSO/SBT)

Jair Bolsonaro é o resultado último e, portanto, o responsável indireto pelas ações ilegais e antiéticas, logo, criminosas, perpetradas pelos protagonistas da Lava Jato –Sergio Moro e Deltan Dallagnol– e denunciadas por The Intercept.

E é o responsável indireto pelo fato de o apresentador Ratinho (Carlos Massa), durante sua entrevista com Moro, ter espalhado deliberadamente e com má-fé uma calúnia contra mim, afirmando que eu teria vendido meu mandato a Glenn Greenwald e ignorando completamente a razão verdadeira de eu ter saído do país: reiteradas ameaças de morte dirigidas contra mim e contra minha família e a pesada campanha difamatória por meio de fake news movida pelo mesmo esquema de fabricação de mentiras e destruição de reputações que elegeu Bolsonaro e outros candidatos do PSL.

Os verdadeiros motivos de eu ter deixado o país –as ameaças de morte e a difamação que me tornava um alvo de insultos e ataques de pessoas comuns em quase todos os espaços aonde eu ia– são reconhecidos por relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos), organismo sério e mundialmente respeitado.

Porém, talvez em nome do possível contrato milionário de sua emissora com o governo federal para veicular propaganda da reforma da Previdência, que vai ampliar a miséria no Brasil, ou talvez por pura identificação com o modus operandi de Bolsonaro, Ratinho optou por mentir descaradamente, sob o pretexto de que estava fazendo uma pergunta a Moro.

Bolsonaro se elegeu por meio de mentiras, divulgação em massa de notícias falsas (fake news) em redes sociais digitais (o WhatsApp principalmente) financiada por caixa 2, que é um crime eleitoral –esse esquema foi denunciado corajosamente pelo jornal Folha de S.Paulo–, por meio da manipulação e do "atentado" que teria sofrido.

Em reportagem publicada na Folha, o espanhol Luis Novoa, dono da agência Enviawhatsapps, disse que "empresas, açougues, lavadoras de carros e fábricas" brasileiros compraram seu software para mandar mensagens em massa a favor de Bolsonaro durante as eleições.

Mas não foram só mensagens "a favor" de Bolsonaro que foram enviadas massivamente aos eleitores, mas, principalmente, mentiras e calúnias contra seus adversários, com o propósito de destruir suas reputações.

Jamais nos esqueçamos das fake news sobre a "mamadeira de piroca" que seria distribuída pelo PT em creches de todo o país e sobre o "kit gay" que serviria à "homossexualização" dos alunos da rede pública (esta última inventada por Bolsonaro ainda em 2011, se aproveitando da primeira crise que abalou o primeiro governo Dilma).

O pânico moral provocado por meio da interpelação da homofobia social das pessoas a partir dessas duas fake news –cuja divulgação em massa em redes sociais foi financiada por dinheiro obtido com crime eleitoral de "caixa 2"– foi decisivo na vitória de Bolsonaro.

E é novamente essa homofobia social que agora continua sendo manipulada pelas mesmas milícias bolsonaristas para tentar jogar a opinião pública contra Glenn Greenwald e, com isso, tentar desqualificar as graves denúncias feitas por The Intercept dos crimes perpetrados pela Lava Jato.

Ou seja, a homofobia social segue sendo a munição de Bolsonaro para fazer política.

Quando as denúncias de The Intercept repercutiram como deveriam na imprensa comercial (exceto no noticiário da Globo), uma conta com o nome de "Pavão" foi criada para publicar a mentira de que Glenn Greenwald, fundador do site, seria financiado por bilionário russo e teria comprado meu mandato para dar a David Miranda, seu companheiro.

Esta fake news, como qualquer outra (elas são objeto dos estudos que estou fazendo agora), aproveita-se de um elemento da verdade para construir, em torno dele, uma mentira.

David Miranda (PSOL) ficou como meu suplente nas últimas eleições. Por coincidência, ambos somos gays, do mesmo partido e domicílio eleitoral. Por lei, era ele quem deveria ocupar a vaga de deputado com a minha desistência de investir no mandato.

E eu desisti do mandato porque gente como essa que está por trás do perfil "Pavão" estava me ameaçando de morte.

Segundos depois de esse perfil publicar a fake news, a hashtag "Show do Pavão" começou a ser espalhada por robôs no Twitter em busca do primeiro lugar nos Trending Topics (assuntos mais comentados desta rede social).

Observando por alguns segundos os perfis que alimentaram a tag "Show do Pavão" e a assombrosa a velocidade com que isso foi feito, ficou claro que se tratou de um ataque orquestrado.

Outro aspecto que me pareceu bastante evidente é que quem está por trás desse ataque é o filho do presidente que é bicha ainda presa no armário e, por isso, homofóbica, ressentida, má e obsessiva.

O fato de essa nova fake news envolver mais uma vez três gays assumidos, orgulhosos de sua orientação sexual e inteligentes –Glenn, David e eu– é a prova de que quem a criou e é alguém com profunda homofobia internalizada e burro.

O filho do presidente que é bicha presa no armário devido à vergonha de sua homossexualidade e, por isso mesmo, homofóbico, ressentido e mau tem verdadeira obsessão por mim, assim como seu pai.

Ao longo dos últimos 12 anos e principalmente durante as eleições, a homofobia tem sido a arma de ambos contra mim e um meio de se promoverem.

A homofobia em qualquer de suas expressões é um horror. E héteros homofóbicos são terríveis (foram capazes de dar a Presidência da República a um energúmeno pelo simples fato de este ter tacitamente prometido acabar com os gays e lésbicas).

Mas nenhum desses héteros homofóbicos pode ser tão mau e abominável quanto um homossexual enrustido porque impedido de viver seu desejo com orgulho, invejoso do gozo de homossexuais assumidos e capacho de héteros que odeiam ou desprezam LGBTs.

Quero deixar claro que só estou me referindo à homossexualidade enrustida do filho homofóbico, burro e mau do presidente porque esta vem sendo o motor dos horrores perpetrados por ele e por seu pai contra mim e outras pessoas honradas.

Se o filho do presidente bicha vivesse sua homossexualidade com vergonha, mas sem fazer danos à reputação de ninguém em função dessa vergonha, eu jamais iria me referir à sua orientação sexual, vivida com culpa e medo. Eu o deixaria lá em seu armário, destruindo-se por dentro.‪

Ele teve todas as chances e meios de enfrentar a homofobia do pai e ser um gay como eu sou –orgulhoso de mim, inteligente, ativista e honrado, disposta a lutar por justiça social.

Mas optou por ser essa vergonhosa fábrica de fake news homofóbicas.‬

Como já era de se esperar, após o ataque orquestrado no Twitter, a parte orgânica das milícias bolsonaristas na internet começou a se mover. Os covardes do Dogolachan (fórum de masculinistas e psicopatas fãs do presidente da República e do qual saíram os assassinos que massacraram estudantes em Realengo, Rio de Janeiro, em 2011, e em Suzano, São Paulo, neste ano), que já ameaçam há tempos Lola Aronovich, Débora Diniz, Márcia Tiburi e a mim, começaram a ameaçar os filhos adotivos e a mãe de David Miranda.

A PF vai prender essa quadrilha, ou ela vai poder continuar atacando à vontade os adversários e críticos de Bolsonaro?

As homofobias social e institucional mais os preconceitos contra esquerda que vigoram na Polícia Federal brasileira lhe impedem de agir republicanamente e a transformam em cúmplice indireta de criminosos que atentam contra a vida de autoridades LGBTs e de pessoas de esquerda.

Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes defendeu que os responsáveis por vazarem à imprensa os crimes perpetrados pelos protagonistas da Lava Jato fossem presos. Pergunto que pena o excelentíssimo juiz da Suprema Corte sugere para os crimes perpetrados por Moro e Dallagnol na condução da Lava Jato. Nenhuma?

O que ele tem a dizer sobre a abjeta campanha difamatória contra Gleen Greenwald e contra mim? Como vai se posicionar diante do fato de Ratinho, cuja emissora receberá volumosa verba publicitária do governo de Bolsonaro para veicular propaganda em defesa da reforma da Previdência, ter veiculado uma fake news contra Glenn Greenwald e principalmente contra mim?

Moraes será capaz de se indignar publicamente com as ameaças de morte de que David Miranda e eu somos vítimas?

O que se vive no Brasil hoje é mais completa e cínica inversão de valores. As instituições não estão funcionando de modo republicano. Algumas delas viraram instrumentos de perseguição e eliminação de adversários políticos, líderes de movimentos sociais e de populações indesejadas.

E o grande responsável por isso é, em última instância, Jair Bolsonaro. Por isso, eu o acuso. Aliás, eu o acuso de ser também, em última instância, o responsável pela prisão política de Lula, já que hoje sabemos, graças às denúncias de The Intercept, que este foi preso para que não pudesse concorrer com Bolsonaro nas eleições de outubro, uma vez que era líquida e certa sua vitória.

Hoje sabemos que Lula foi preso também porque Bolsonaro prometeu a Sergio Moro o Ministério da Justiça e uma vaga no Supremo Tribunal Federal.

Como disse Émile Zola, em texto histórico contra o presidente da França Félix Faure, que, em 1898, indiretamente permitiu que Dreyfus fosse condenado por uma fake news antissemita (na época não se usava esse nome, mas ela já existia) e cujo título tomei emprestado para batizar este texto, "meu dever é de falar, não quero ser cúmplice. Minhas noites seriam atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrível das torturas, por um crime que ele não cometeu".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.