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Jean Wyllys

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Os últimos dias de Sodoma

Jean Wyllys

01/06/2019 04h00

Foto: AFP

O Papa Francisco quer destruir Sodoma! Não aquela cidade descrita numa das narrativas do Antigo Testamento e já destruída por Deus por razões controversas das quais tratarei adiante. Crítico contundente da cada vez maior concentração das riquezas do mundo nas mãos de tão pouca gente e da decorrente e nefasta desigualdade social (para ficarmos só no caso do Brasil, quase 30% de toda renda do país está nas mãos de apenas 1% dos habitantes; trata-se da maior concentração desse tipo em todo o mundo, como revela a Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, coordenada, entre outros, pelo economista francês Thomas Piketty), disposto a impor transparência ao banco do Vaticano e suas finanças, engajado no acolhimento e na proteção de imigrantes e refugiados, crítico da hipocrisia e da violência dos fundamentalistas religiosos, defensor do meio ambiente e de uma economia que possa reverter as mudanças climáticas e sensível à questão LGBT, o Papa Francisco emerge como um poderoso aliado dos humilhados e ofendidos de todo o mundo, dos que não gozam da hospitalidade de Sodoma – aqui tomada como uma metáfora dos estados neoliberais e suas metrópoles gentrificadas e seus mercados livres e insensíveis às misérias e às dores dos que não podem consumir. O pontífice está disposto, portanto, a destruir essa Sodoma, assim como o fez seu Deus com aquela outra, segundo uma das narrativas que sustentam sua fé.

Utilizo Sodoma como metáfora da exclusão produzida pelo capitalismo ultraliberal que varre o mundo, capitaneado por grandes corporações comerciais, complexos industriais e instituições do mercado financeiro que se sobrepõem aos estados-nações; faço isso com o propósito claro de contrapor o sentido sexual desta palavra que se cristalizou no imaginário popular ao longo dos séculos por conta de traduções e interpretações no mínimo discutíveis (para não dizer completamente falsas) da história que narra a destruição da cidade bíblica.

Embora o senso comum judaico-cristão creia que Sodoma tenha sido calcinada por Deus por causa do que hoje chamamos "homossexualidade", tendo teólogos da Igreja Católica, sobretudo no período da Inquisição Medieval, empregado o termo "sodomita" para se referirem aos homossexuais masculinos (e sempre a estes, já que, até agora, os homofóbicos das religiões abraâmicas – o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo – ainda não encontraram em suas narrativas fundacionais nenhum trecho que lhes sirva para "justificar" a perseguição e a violência às lésbicas e às pessoas trans); embora haja, no imaginário da maioria, essa associação imediata entre Sodoma e homosexualidade, a verdade é que a maioria dos historiadores do judaico-cristianismo, filólogos, etimólogos, linguistas, filósofos da linguagem, arqueólogos e teólogos prestigiados e seriamente dedicados aos estudos dos textos originais da Bíblia concordam que o motivo da destruição de Sodoma não foi o que hoje chamamos de homossexualidade, mas, sim, o problema da falta de hospitalidade, da ausência de empatia em relação aos estrangeiros (aos outros: os imigrantes e refugiados, os desamparados) e da violência perpetrada contra estes (incluída aí a violência sexual, cujos perpetradores ao longo da história da humanidade sempre foram homens heterossexuais, e suas vítimas sempre foram as mulheres, as crianças e o que hoje chamamos de gays).

Portanto, a associação entre Sodoma e homossexualidade não passou de um ardil maléfico da cúpula da Igreja Católica – e hoje reproduzido pelas igrejas neopentecostais – para rechaçar a homossexualidade masculina e toda ameaça potencial que esta representa ao patriarcado e à dominação masculina sobre as mulheres.

Porém, como às vezes a vida é justa e os deuses, se existem, resolvem se vingar, o escritor francês, jornalista investigativo e doutor em Sociologia Frédéric Martel decidiu usar o ardil por meio do qual a Igreja Católica impôs tanto sofrimento e morte a milhões de homossexuais, contra ela mesma. Martel decidiu batizar sua rigorosa – e chocante! – investigação sobre a prática de orgias homossexuais e abusos sexuais de menores entre os membros do baixo e do alto clero da Igreja Católica, inclusive nas dependências do próprio Vaticano, de… "Sodoma"!

Martel dedicou quatro anos de sua vida a essa investigação, tendo entrevistado pessoas e consultado documentos em mais de 30 países e contado com a ajuda de 80 pesquisadores. Parte desse tempo ele viveu dentro do próprio Vaticano. O resultado é uma bomba (no melhor sentido!) e, em parte, explica (não justifica!) a persistência da pedofilia na Igreja Católica.

A homofobia social (produzida e reproduzia principalmente pelas igrejas cristãs) acaba por levar garotos gays pobres para seminários como forma de se protegerem da violência homofóbica, inclusive a praticada em suas próprias famílias. Uma vez dentro desses espaços de sociabilidade exclusivamente masculina e convivendo com homens mais velhos que viveram histórias semelhantes às suas – e que são obrigados pela doutrina da Igreja a recalcar o desejo homossexual (embora a psicanálise tenha nos ensinado que o que é recalcado sempre retorna sob outra máscara) – esses garotos se tornam presas fáceis dos abusadores sexuais e, mais tarde, acabam eles mesmos se convertendo em novos abusadores (o abuso como a única forma de viver o desejo homossexual numa instituição que o condena e reprime). Um ciclo de repressão ao desejo, culpa, vergonha e violência que a Igreja Católica por anos não só fingiu não existir como o alimentou.

Antes que alguém pense que "Sodoma" é um livro contra a homossexualidade de padres, bispos e cardeais, ou moralista em relação à prática de orgias e ao consumo de drogas ilícitas, deixo claro, junto com Frédéric Martel, que não se trata disso. Trata-se de um livro contra a hipocrisia e a falsidade dos que, por um lado e publicamente, condenam e ofendem a homossexualidade e os gays assumidos, mas, por outro lado e às escondidas, entregam-se aos prazeres das orgias homossexuais regadas a drogas ilícitas.

Frédéric Martel dedica passagens extensas de seu livro a mostrar quão viperinos e maledicentes são esses homossexuais enrustidas que ocupam posições importantes na hierarquia do clero. Quase todos guardam aquele rancor típico de quem inveja a liberdade dos que não precisam se esconder, fingir, ou mentir sobre si mesmos; aquele comportamento que flagramos quase sempre em bichas com homofobia internalizada, que odeiam a ideia de orgulho gay e a nossa luta política por igualdade.
Martel deixa claro que esses são quase todos inimigos do Papa Francisco. Reservaram para este os piores venenos e juízos. Acham Francisco demasiado interessado nas "periferias" e "simpático ao comunismo". Acusam-no de tolerante com a comunidade LGBT apenas por uma questão de cálculo político e marketing pessoal. Vejam só!

Ainda que a simpatia do Papa Francisco fosse só uma questão de marketing pessoal, este já estaria fazendo muito mais pela comunidade LGBT do que esses hipócritas que nos ofendem e estimulam o ódio contra nós, mas, à noite, sob os olhares dos santos martirizados em quadros barrocos e renascentistas, entregam-se aos prazeres da homosexualidade.

Após ler "Sodoma", não há qualquer dúvida: por mais críticas que se tenha (principalmente os argentinos) ao Papa Francisco, este é melhor e muito melhor que seus inimigos dentro da Igreja Católica: aqueles que não se importam com os pobres, que rechaçam refugiados e imigrantes, que odeiam homossexuais e transexuais (embora pratiquem a homossexualidade às escondidas), que negam direitos sexuais e reprodutivos às mulheres e que enaltecem e elogiam torturadores e tiranos. Está claro que essa extrema-direita católica é a população da nova Sodoma. E eu estou certo de que se Deus decidisse destruir esta cidade-metáfora mais uma vez, pouparia o Papa Francisco e os que são como ele. Aliás, como escreveu Francisco na carta a Lula, um dos injustiçados e humilhados do mundo, "no final, o bem vencerá o mal, a verdade vencerá a mentira e a Salvação vencerá a condenação".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.