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Jean Wyllys

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A luz de Tieta (para não dizerem que só escrevo sobre política)

Jean Wyllys

10/08/2019 20h49

Betty Faria interpreta Tieta; Globo deveria fazer um ramake da telenovela - mas incluindo a crítica social trazida na obra de Amado

Betty Faria interpreta Tieta; Globo deveria fazer um ramake da telenovela – mas incluindo a crítica social trazida na obra de Amado

Hoje, 10 de agosto, completam-se 107 anos do nascimento do baiano Jorge Amado, o mais popular e mundialmente conhecido escritor brasileiro (com exceção de Paulo Coelho). Em 1977, quatro dias após seu aniversário, Amado lançou "Tieta do Agreste", seu 24º livro. A princípio, como sugere o restante do título desta obra, trata-se de um "melodramático folhetim em cinco sensacionais episódios e um comovente epílogo".

A pastora de cabras Maria Antonieta – chamada de "Tieta" por familiares e vizinhos – é delata ao pai, Zé Esteves, pela irmã, a carola Perpétua, que não se contém de inveja ao ver a irmã no exercício de sua sexualidade. Num tempo em que mulher só poderia "perder o cabaço" depois de casada na igreja e no civil (esse tempo acabou de verdade?), sob pena de desonrar toda a família em caso contrário, Tieta é escorraçada e humilhada pelo pai e posta para fora da pequena Santana do Agreste numa marinete. Anos depois, Tieta, a "filha pródiga", volta rica à cidade natal e tem a chance de fazer um acerto de contas com a família que a expulsou.

Este melodrama, no entanto, é só a fachada de um sólido edifício literário construído por Amado e contém vigoroso e atualíssimo debate político: a ameaça que representam ao meio ambiente e a todas as espécies vivas a ganância desenfreada das empresas e a corrupção política que elas promovem. Jorge Amado antecipava em décadas o debate sobre as mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global produzido pela poluição das grandes indústrias e pelo desmatamento desenfreado. Na trama, sob a desculpa de que Santana do Agreste precisava do "progresso", uma vez que sequer a luz elétrica havia chegado à cidade (as casas da burguesia local eram iluminadas com a luz de um motor), mas, na verdade, visando o enriquecimento privado, as autoridades políticas locais concedem licença para que uma fábrica de dióxido de titânio (a Brastânio) – altamente poluente e tóxica, que mataria ou adoeceria as pessoas e os bichos no futuro – fizesse sua instalação na praia de Mangue Seco, um paraíso até então preservado.

A telenovela "Tieta", adaptação do romance feita por Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn em 1989 para a Rede Globo, passa ao largo dessa questão, concentrando-se no que há de folhetinesco no livro de Amado, embora tenha sido maravilhosa e marcado um geração (aliás, a Globo deveria pensar seriamente em fazer um ramake desta telenovela, dessa vez não se limitando ao folhetim).

Quem mais é fiel ao que Jorge Amado mantém por trás da fachada de seu edifício literário é Cacá Diegues em sua adaptação do romance para o cinema em 1996. Claro, a sétima arte sempre pode ir e vai mais além do que a televisão. Para compor a trilha sonora deste filme, Diegues convidou o compositor – leitor entusiasmado da obra de Jorge Amado e também baiano – Caetano Veloso, que, há três dias, 7 de agosto, fez aniversário de 77 anos.

Inteligente e talentoso como sempre, Caetano compôs uma trilha que ganhou vida para além do filme. Nela, destaca-se a música "A luz de Tieta", a mais perfeita tradução, até momento, do que está por trás do folhetim de Jorge Amado. Por ser um samba-reggae e ter surgido no auge da música comercial e popular produzida na Bahia (a chamada "axé music), esta música de Caetano Veloso foi duramente criticada à época por intelectuais e jornalistas elitistas que escreviam para a Folha de S.Paulo, a exemplo de Marilene Felinto e Pedro Alexandre Santos, que a acusaram de "pobreza literária" por causa do refrão "Êta! Êta! Êta! Êta! É lua; é o sol; é a luz de Tieta! Êta! Êta!". A esses intelectuais faltavam, à época, leitura do romance de Jorge Amado e boa vontade, além de conhecimento das particularidades linguísticas da Bahia ("Êta!" é uma expressão de surpresa diante de algum bom e inusitado).

Com a – e por causa da – volta de Tieta à Santana do Agreste, a luz elétrica chega à cidade. Tieta é a metáfora do que pode iluminar as pessoas. É quem poderia, de verdade, guiar o povo, como a Liberdade no quadro de Eugène Delacroix, ao contrário dos "homens de bem" da política e dos fundamentalistas cristãos da cidade, movidos pela ganância e pela hipocrisia, a começar por sua irmã Perpétua.

Observando o que se passa agora no Brasil, em que fanáticos religiosos ignorantes como Damares, Weintraub e Ernesto Araújo ocupam ministérios; e em que um hipócrita espertalhão com tendências ditatoriais e igualmente inculto como Bolsonaro ameaça a floresta amazônica e os povos indígenas com sua política ambiental predatória, sob aplausos de pessoas manipuladas diariamente pela mentira e literalmente envenenadas, eu não posso deixar de pensar na atualidade de "Tieta do Agreste", o romance de Jorge Amado que fará aniversário nos próximos dias. Ao observar o comportamento do ministro da Justiça, Sergio Moro, à frente da Polícia Federal, cada dia mais uma polícia política, capaz de forjar "crimes" e provas (como essa fraude das supostas conversas de membros da organização criminosa PCC citando o Partido dos Trabalhadores como seu facilitador) para proteger um verdadeiro criminoso que atentou contra a soberania popular e conspirou contra a democracia, penso na precisão dos versos de Caetano Veloso ao se referir a Tieta, a puta que estava eticamente acima dos que lhe desprezavam moralmente, e à gente de Santana do Agreste (microcosmo do Brasil):

"Nessa terra, a dor é grande e ambição pequena: Carnaval e futebol. Quem não finge, quem não mente, quem mais goza e pena é quem serve de farol".

Tieta é como Lula.

Depois de tudo que faz por Santana do Agreste, Tieta tem que, mais uma vez, deixar a cidade sob as acusações dos que não têm moral para acusá-la de nada, isso porque as autoridades locais descobrem que ela era puta em São Paulo. Com os eleitores enganados como plateia, estas autoridades inauguram a luz elétrica com uma praça à qual dão o nome de um político local, ignorando a real responsável pela chegada da luz e pela a proteção do meio-ambiente.

Mas, na calada da noite, a placa de metal com a homenagem ao tal político foi substituída por uma de madeira onde se lia "Praça da luz de Tieta", feita artesanalmente por mãos anônimas, mãos do povo.

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.