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Jean Wyllys

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O que será da democracia

UOL Noticias

02/08/2019 16h39

Imagem do vídeo Privacidade Hackeada Foto: Divulgação/Sundance Festival

"É um problema intenso viver com essa desinformação e essa propaganda negativa todo santo dia, e sentir o resultado disso e saber que funciona. Há um impacto na vida real, acreditem ou não", diz Carole Cadwalladr, jornalista de The Guardian vítima de fake news e insultos perpetrados por partidários do Brexit (campanha para que o Reino Unido deixe a União Europeia) e por perfis falsos operados por robôs nas redes sociais daquele país pelo fato de ter investigado a empresa Cambridge Analytica e sua ligação com a campanha do Brexit e a que, nos EUA, deu a eleição a Donald Trump em 2016.

Em ambos processos decisórios, os dados pessoais e comportamentais dos cidadãos e cidadãs com perfis no Facebook – dados adquiridos diariamente por esta mídia social por meio das postagens, curtidas, compras, vendas, compartilhamentos e relacionamentos que seus usuários fazem – foram utilizados na criação de campanhas destinadas a manipular os medos e preconceitos específicos de cada eleitor por meio de notícias mentirosas e teorias conspiratórias.

O contundente depoimento da jornalista de The Guardian e a descrição de sua rigorosa investigação jornalística fazem parte do documentário "Privacidade Hackeada" ("Great Hack", título original), dirigido por Karim Amer e Jehane Noujaim e disponibilizado por Netflix há poucos dias.
Trata-se de uma denúncia Internacional de como Cambridge Analytica e Facebook estão vendendo os dados dos usuários desta mídia social para partidos e grupos de extrema-direita e fascistas em todo mundo, e organizando suas campanhas. O documentário acompanha a saga de um cidadão americano que decide usar as leis do único país que tem jurisdição sobre Cambridge Analytica, o Reino Unido, para recuperar seus dados pessoais e privados. Uma reencenação do mito da luta de David contra Golias.

Os machos adultos brancos, ricos e cristãos por trás desse complô para solapar a democracia em todo mundo não têm qualquer empatia ou compaixão pelas vítimas de suas mentiras, notícias falsas e teorias conspiratórias, sejam estas coletivos ou indivíduos. Eles não se importam se imigrantes sírios, húngaros, senegaleses, magrebinos, venezuelanos, mexicanos, brasileiros ou se muçulmanos e membros da comunidade LGBT são vítimas de discriminações e violências físicas durante essas campanhas e meios desonestos de intervenção nas cenas políticas de diferentes países. Não enxergam essas vítimas como humanas.

Tampouco estão preocupados com a segurança de alguém como a jornalista Carole Cadwalladr. Como diz outro depoente em "Privacidade Hackeada", o cientista de dados Cris Wylie, ao vice-presidente de Cambridge Analytica, o cristão fundamentalista de extrema-direita Steve Bannon, e aos outros homens brancos, ricos e cristãos com os quais tem sociedade, só interessa destruir as sociedades para depois moldá-las de acordo com sua visão de mundo.

O documentário da Netflix não inclui o caso do Brasil, talvez por ter sido concluído antes do resultado das eleições de 2018. Mas deixa evidente que o tipo de campanha que fez Bolsonaro e o (des)governo que este conduz no Brasil integram essa tarefa global da extrema-direita de dividir e destruir as sociedades para alcançar o poder sem se importar com o sofrimento daqueles construídos, por suas mentiras e insultos, como inimigos a serem abatidos.

Meu depoimento como vítima da campanha suja de Bolsonaro, baseada em mentiras e notícias falsas a meu respeito, e sobre as ameaças de morte que ela gerou contra mim e minha família e que me forçaram a deixar o país para continuar vivo, está em meu novo livro, "O que será" (Objetiva, 2019), já nas livrarias. Aí eu também faço uma reflexão sobre a homofobia como pedra angular do edifício dessa extrema-direita, afinal, gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans são alvos de preconceitos e aversões tanto na classe A quanto na classe C; tanto entre iletrados quanto entre intelectuais; tanto na comunidade dos crentes quanto na de ateus; tanto na direita como na esquerda.

Sendo assim, as campanhas de Cambridge Analytica sempre começam manipulando a ansiedade sexual das maiorias com notícias falsas e teorias conspiratórias em relação à comunidade LGBT; está aí a "ideologia de gênero" para não me deixar mentir.

Mas o que será da democracia após essa denúncia internacional feita por "Privacidade hackeada"? O que será? O documentário nos mostra que o mundo como conhecíamos foi desfigurado pela força da grana a serviço da mentira. A democracia de partidos solidamente estabelecidos está em colapso, assim como o monopólio de grupos exclusivos de meios de comunicação sobre a tarefa de noticiar e produzir sentido.

Os meios de comunicação de massa perderam a força ante a massa de mídias. Os filtros éticos e a empatia construídos por séculos de modernidade cultural estão desaparecendo, e as pessoas hoje se sentem "autorizadas" a perpetrarem racismo, machismo, xenofobia e, principalmente, homofobia nas redes sociais como na vida. Autoridades estão abrindo mão de serem referências de civilização para se apresentarem como porta-vozes da barbárie, como é o caso de Bolsonaro e sua prole. O mundo virou uma ruína dividida.

Tudo isso nos é dito por "Privacidade hackeada". A vantagem do documentário em relação à experiência real com esse "fim de mundo" é que ele organiza os acontecimentos numa narrativa que nos ajuda a medir a fundura do abismo em que Cambridge Analytica, Facebook e a extrema-direita nos atiraram – e a calcular se é possível ou não escalar até o alto de novo.

Seguramente o mundo não será outra vez como era antes desse complô. Mas talvez haja alguma chance de a democracia, nascida no século IV a.C (antes de Cristo), sobreviver a mais esse inimigo interno engendrado por ela mesma. Sim, por ela mesma: não nos esqueçamos de que a extrema-direita montou seu plano de ataque à democracia depois de ver as manifestações da Primavera Árabe organizadas via redes sociais.

Caso essa reação da democracia não aconteça, George Orwell – homem de esquerda negligenciado por este campo político e cuja imaginação sobre distopias autoritárias foi transformada em realidade pela extrema-direita – terá razão em sua ficção profética: "O próprio conceito de veracidade está desaparecendo. Mentiras tornar-se-ão história".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.