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Jean Wyllys

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Nada mais anticristo que o fascismo

Jean Wyllys

24/04/2019 08h50

(Foto: Reuters)

O que não faltam, no Brasil, são sintomas do mal que se alastra na sociedade já há algum tempo, mas que se intensificou após a eleição de Bolsonaro: o fascismo. O mais recente deles se manifestou na última Sexta-feira da Paixão, em Ouro Preto, Minas Gerais.

Soldados da guarda municipal desfizeram o tapete de serragem colorida feito em homenagem a Marielle Franco, vereadora do PSOL executada em março de 2018, junto com seu motorista Anderson Gomes, num atentado cujos mandantes ainda não foram identificados, mas cujos perpetradores pertencem a milícias que atuam no Rio de Janeiro e têm ligações ainda não completamente esclarecidas com a família do presidente da República.

A cena é chocante (ao menos para quem defende valor e princípio como o da justiça e o da dignidade humana; ao menos para quem ainda resiste à banalidade do mal; para quem ainda não aderiu a este; ao menos para quem vê o Brasil de fora):  sob os olhares de populares que, felizmente, não se calaram diante de ofensa tamanha, dois soldados desfazem, com ódio, o belo tapete de serragem donde se podia ler o nome "Marielle". Assista:

A maior parte da imprensa brasileira noticiou o episódio de maneira tão "objetiva", blasé, quase insensível ao que ele seriamente implica, que a impressão que se dá é a de que jornalistas estão se convertendo em inteligências artificiais sem sentimentos nem capacidade de interpretação dos fatos.

Na contramão dessa deriva fascista em que se encontra o Brasil, um jardim, em Paris, na França, receberá o nome de Marielle Franco no próximo dia 17 de maio. Os franceses – representados pela prefeita Anne Hidalgo e pelo Conselho de Paris, interpelados por movimentos sociais em defesa dos Direitos Humanos – reconhecem que a brasileira se dedicou em vida a – e, após seu assassinato, converteu-se em símbolo de – tudo aquilo que a tradição política da França transformou em sua bandeira nacional: liberdade, igualdade e fraternidade – princípios que são evocados também por todo mundo democrático, daí a merecida homenagem.

Quem quebra uma placa de rua ou desfaz um tapete de serragem colorida com o nome de Marielle Franco não tem qualquer afinidade com os ideias de liberdade, igualdade e fraternidade, tampouco com a justiça e a reparação histórica. Ao contrário, mostra-se entusiasta, quase cúmplice, do assassinato da vereadora e da prática de violência política.

O mesmo se pode dizer das autoridades que  tentam "justificar" essa violência política e legítimá-la. Nesse sentido, piores que os soldados da Guarda Municipal de Ouro Preto que atentaram contra a memória de Marielle Franco são seu comandante, autor de uma nota que seria encarada como, no mínimo, surreal se as instituições democráticas estivessem funcionando normalmente no Brasil, e os vereadores e o prefeito da cidade mineira que se calaram ante o horror.

A nota do Comando da Guarda Municipal é um documento da ignorância motivada, do analfabetismo político, do fanatismo religioso e do abuso do poder; em resumo, é uma pérola do fascismo com o qual as autoridades brasileiras acima do comandante da guarda parecem concordar, já que ainda não reagiram de forma contundente a ela:

Quanto ao episódio onde os agentes municipais desmancham desenhos de cunho político entre outros que nenhuma relação possuem com os "tapetes devocionais", informamos que a liberdade de expressão não é absoluta ainda mais quando outros direitos estão sendo afetados.

O recado já foi dado em 2018, em 2019 não foi diferente. Respeitem Ouro Preto, nossas tradições. Vale salientar que os guardas só desmancharam os tapetes com os pés, porque não tínhamos outro instrumento

Ainda que as homenagens a jogadores de futebol e autoridades políticas feitas ao longo dos anos por meio dos tapetes de serragem colorida nas sextas-feiras da Paixão não desmentissem a cínica nota da Guarda Municipal de Ouro Preto, a afirmação de que a política nada tem a ver com a tradição dos "tapetes devocionais" não passaria de uma estupidez motivada!

O autor da nota não leva em conta que o episódio a que a encenação da Paixão de Cristo se refere tem enorme cunho político, já que Jesus foi condenado à pena de morte porque atuava politicamente; porque se opunha a um regime de opressão imposto pelo Império Romano em conluio com as autoridades religiosas de seu próprio povo. Jesus foi humilhado, torturado e, por fim, executado por soldados e guardas que serviam a esse conluio porque era um ativista político.

De acordo com pesquisas e análises de prestigiados historiadores da vida de Jesus de Nazaré e do cristianismo primitivo, como Reza Aslan, autor de "Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré", por exemplo, Jesus, e postas de lado as questões de fé como a de que "sua morte nos redimiu do pecado" (e a quantidade de pecadores abjetos que hoje falam e cometem atrocidades "em nome de Jesus" apenas provam que essa é só uma questão de fé cega, faca amolada!), o fato é que Jesus desafiou politicamente poderosos na Palestina do século I d.C. e, por isso, foi considerado um subversivo, acusado falsamente e, por fim, sentenciado à execução pública.

Concordo que esperar dos fascistas da Guarda Municipal de Ouro Preto algum conhecimento sobre a história de sua própria religião beira a ingenuidade, mas não se pode dizer o mesmo de autoridades que têm a prerrogativa de colocar algum limite na violência perpetrada por eles em nome de "suas tradições".

As motivações da morte de Jesus – analisados os fatos históricos e guardadas as devidas diferenças – são parecidas com aquelas que, de acordo com as investigações ainda inconclusas, estão por trás do assassinato de Marielle Franco portanto.

Logo, nada mais justo do que, numa encenação que busca fazer referência ao episódio da execução de Jesus, homenagear-se uma pessoa que, assim como Ele milênios atrás, fora assassinada por defender a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Marielle Franco era mais cristã e esteve mais de acordo as ideias do judeu palestino Jesus de Nazaré do que os fascistas covardes que desfizeram o tapete de serragem em sua homenagem, do que quem buscou "justificar" essa ignomínia em nota fascista e do que as autoridades que se calam diante desta.

Nada mais anticristo do que essa gente!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.