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Jean Wyllys

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Defensores da Educação e governo Bolsonaro: batalha da vida contra a morte

Jean Wyllys

2018-05-20T19:18:08

18/05/2019 18h08

Manifestantes protestam contra os cortes na Educação (Foto: Roberto Herrera/Fotoarena/Estadão Conteúdo)

Seria até divertido se o resultado para o país não fosse essa catástrofe. Depois do cineasta José Padilha pular da balsa que ajudou a pôr no mar em deriva fascista, chegou a vez de Lobão. Este, mais duro que o cineasta oportunista (e desonesto intelectualmente, já que, em vez de assumir parte da culpa pela eleição de Bolsonaro et caterva, decidiu responsabilizar a "a esquerda"), não se limitou a apontar a incompetência e a brutalidade do presidente e de seus três filhos feitos à sua imagem e semelhança, para os quais o músico fez apaixonada (e também pouco honesta intelectualmente) campanha nas redes sociais : referiu-se ao guru dos Bolsonaro, o astrólogo ruim, com o termo que melhor lhe define: sociopata.

Lobão também admitiu que o país não é o Twitter e que, portanto, as milícias virtuais movidas pelos Bolsonaro e seu partido (e por quem os financiou em campanha e continua financiando) não vão sustentá-los nem conseguir intimidar a todos cujas vozes se levantam contra esse (des)governo. Nesse momento, Lobão é a mais nova presa da alcateia da qual fazia parte e atiçava contra quem dizia exatamente o que ele está a dizer agora.

No caso do cineasta Padilha, sabemos que seu arrependimento tem preço (e alto!): para emplacar a segunda temporada de sua série ruim, pouco distinta de uma peça de campanha eleitoral antipetista, ele teve que interpretar mal esse papel. Mas e o caso Lobão?

Como pessoas inteligentes ou que se acham inteligentes; como pessoas com acesso a múltiplas fontes de informação; como pessoas viajadas; enfim, como pessoas privilegiadas se deixaram enganar por alguém que nunca escondeu quem é de fato: ignorante, bruto, homofóbico, racista, misógino e corrupto? Como essas pessoas, mais que se deixaram enganar, engajaram-se na campanha desse sujeito e de seus filhos a ponto de elegerem, como deputado federal mais votado do Rio de Janeiro, um segurança sem qualquer experiência em política, apenas porque este usou o sobrenome e o mesmo número de Eduardo Bolsonaro?

Que pessoas pobres, exploradas e manipuladas por chefes de milícias que controlam territórios e/ou por pastores evangélicos picaretas e que emprestam suas igrejas para lavagem de dinheiro se digam enganadas com os Bolsonaro, tudo bem. Estas em geral se tornaram alvos fáceis da sórdida campanha baseada em fake news e discursos de ódio porque, de fato, não gozam do privilégio de ter tempo para pensar e delegam essa tarefa a pessoas nas quais confiam, como os pastores e os políticos eleitos pelas milícias dos bairros em que moram.

Mas como pessoas como Lobão, Padilha, Regina Duarte, Suzana Vieira, Ana Hickmann, Luciana Gimenez, para citar só alguns dos privilegiados que votaram em Bolsonaro, não viram o óbvio? Alguns dirão: solidariedade de classe. Eles esperavam que o novo governo ampliasse ainda mais seus privilégios e não queriam um Estado que recolhesse impostos dos mais ricos para gastar com os mais pobres. Ok, mas não era óbvio que nem de tal tarefa o energúmeno daria conta? Era óbvio! A diferença entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro era tão evidente quanto a que há entre um leão e uma hiena. Contudo, pessoas esclarecidas fingiram não estar vendo uma hiena ou optaram deliberadamente pela hiena por inveja do leão.

Aliás, no rastro dessas emoções políticas interpeladas pelas fake news – inveja, ódio (do outro e de si) e ressentimento – a maioria do eleitorado optou por outras hienas. O MBL e o PSL são seus territórios. O núcleo duro do governo também é composto desses incompetentes fracassados, invejosos, sem talentos e ressentidos, que encontram a chance da revanche contra tudo que é seu oposto. O que são Bolsonaro e seus filhos? O que são Damares, Weintraub, Ernesto Araújo, Olavo de Carvalho, Joice Hasselmann, Carla Zambelli, Kinta Katiguria, Sergio Moro, Paulo Guedes et caterva?

Como era de se esperar, essa gente mentirosa, assediadora, plagiadora, mau-caráter, invejosa e que não consegue se erguer por força própria nem propor algo de bom e relevante já começa a mostrar sua verdadeira face. Seus perfis no Twitter são um show à parte, ao qual assisto de camarote e de longe. Neles, as hienas já se devoram na esperança de sobreviverem ao que estar por vir. O discurso contra o "comunismo" e a "ideologia de gênero" já não engana uma nação empobrecida e que vê o desemprego crescer. Só as milícias virtuais e reais continuam leais a essa tagarelice de canalhas e espertalhões. Porém, como ressaltou o lobo arrependido, o Brasil não é o Twitter.

A campanha de Bolsonaro pode ter despertado o pior do país e os loucos de cada casa, como disse Almodóvar na eleição de Trump. Porém, ódio fruto de ignorância é um combustível altamente inflamável, mas que rápido se consome; e traz a morte!

Ao ver, pelas redes sociais, as ruas de várias cidades do Brasil tomadas por milhares de pessoas, principalmente jovens, protestando contra os cortes nos investimentos em Educação feitos pelo (des)governo Bolsonaro, meu coração se encheu de esperança e de orgulho. Afinal, muitos dentre os mais de quarenta milhões que votaram em Fernando Haddad e Manuela D'Ávila, e talvez alguns dos milhões que não foram às urnas, começaram a reagir. Já era hora.

Bastava essa centelha para que a chama da resistência e do amor voltasse a se acender. Estes, sim, são combustíveis que demoram a pegar fogo, mas que uma vez acesos, não se consomem depressa; e asseguram a vida!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal, integra o corpo docente da Programa de Pós-Graduação em Infecção por HIV/Aids e Hepatites Virais da UNIRIO e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.