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O que Gabigol fez conosco? (Para não dizer que não falei do Flamengo)

UOL Noticias

25/11/2019 10h17

Reprodução

A amizade faz coisas que até mesmo Deus e os orixás, se existem de fato, duvidam. Meus amigos em Boston, em especial o professor Sidney Chalhoub e a doutoranda Eduarda Araújo, convenceram-me a assistir à final da Libertadores da América com eles e outros brasileiros torcedores do Flamengo.

Bom, não é segredo para ninguém que futebol não é a minha praia em nenhuma de suas modalidades (nem mesmo o próprio futebol de praia!). Apenas em Copas do Mundo passadas, envolvido pelo clima geral de festa, do qual quase nunca se consegue escapar por completo, detive-me diante da tevê para assistir a algum jogo da Seleção Brasileira. Mas sempre prestando atenção em outras questões que não a partida em si mesma.

Observo o futebol à distância (uma distância em que me coloquei para não ser vítima de sua homofobia). E, vendo-o assim, sempre esteve claro, para mim ao menos, em que pesem algumas "torcidas gays" aqui, um jogador ou juiz mais ou menos fora do armário lá e o futebol feminino acolá, que o futebol é uma sociabilidade masculina que se afirma contra a homosexualidade e se ergue na derrisão da condição da mulher. Já sofri muitos insultos e ameaças motivados por homofobia de homens torcedores de futebol por ter feito essa constatação óbvia antes. Eram torcedores homofóbicos usando a homofobia para negar a afirmação de que são homofóbicos. Cômico se não fosse trágico.

Mas o amor pelos meus amigos e o prazer de estar com eles me fizeram assistir à final da Libertadores.

O acontecimento daria mais que este artigo (um ensaio no mínimo, e talvez eu o escreva mais para frente) tantas eram as camadas de sentidos que se sobrepunham na sala daquela casa, a de Eduarda; tantos eram os fios das redes tecidas ali; tantas e coloridas eram as linhas de lutas que se atravessavam naquelas pessoas que ali se reuniam e em suas falas; tantos eram os nós de opressões que se desatavam naquele momento…

Para início de conversa, estávamos na casa de uma mulher que nos convidara a assistir não a uma série da Netflix, mas a uma partida de futebol. Até meados do jogo, Sidney Chalhoub era o único homem heterossexual da casa. Os demais torcedores eram sete homens gays e quatro mulheres.

Perguntei a Chalhoub: "Quando antes você foi minoria sexual na final de um campeonato de futebol? Como se sente hoje?" Ele riu e nos disse: "É. Hoje eu não posso em hipótese alguma chamar o juiz de 'bicha' se ele errar, coisa que, confesso com vergonha, cresci fazendo nos estádios que frequentei até pouco tempo".

Aliás, a chegada de seu filho –igual a ele não só em orientação sexual e semelhança física, mas em termos de performance corporal de gênero– fez-me lembrar do que diz Marcel Proust sobre o imperativo dessa ordem cultural de transformar, como a criação e o passar do tempo, os filhos homens em seus pais e as filhas em suas mães, e de como nós –gays, lésbicas e pessoas trans– resistimos a (e nos debatemos com) esse imperativo, distanciando-nos da ordem cultural, mas sempre profundamente marcados por esta. A nossa relação conflituosa com o futebol –ora de atração, ora de repulsa– é só um pequeno exemplo da resistência de LGBTs em relação ao imperativo sociocultural que quer nos fazer –e quase sempre mais ou menos nos faz– cópias de nossos pais e de nossas mães.

Dois dos gays na sala eram flamenguistas fanáticos. A cada lance dos jogadores do time que aproximava a bola do gol, eles pulavam, gritavam, xingavam com uma paixão sincera e verdadeira que eu só tinha visto até então em torcedores heteros. Aliás, os homens heteros da sala eram até mais comedidos que eles. Por causa deles, eu descobri –e prestei atenção em– Gabigol (ou Gabi Gol, não sei como se escreve o nome desse atleta).

Com seu cabelo descolorido e "sidecut", corpo moreno musculoso coberto de tatuagens e barba grande, o jogador expressa as mesmas estética e performance de masculinidade que têm mobilizado a libido da maioria dos homens gays já há algum tempo, tanto que elas são muito comuns nas pool parties, clubes e filme pornôs gays, amadores ou profissionais.

Quando tirou a camisa e se dirigiu ríspido e viril ao juiz, Gabigol moveu a paixão dos homens e mulheres da sala, independentemente de suas orientações sexuais e motivações conscientes e/ou inconscientes. No subterrâneo dos gritos e observações sobre ele e sobre o jogo, desconstruções e reconstruções de subjetividades aconteciam. Eu, por exemplo, não sei avaliar se ele é um talento como atleta como posso reconhecer que ele tem um carisma e que não dormiria no sereno se batesse à minha porta de noite…

O Flamengo venceu a Libertadores. E quando a vitória se anunciou, em consonância com os flamenguistas que estavam lá no estádio, todos e todas na sala trataram Jesus, o técnico, como se fosse aquele Jesus que dizem ser o filho de Deus, que foi torturado e crucificado por fascistas, que, à época, não tinham esse nome, e que, contudo, está por voltar para redimir nossos pecados.

Os flamenguistas daquela sala estavam felizes com a vitória de Jesus, o técnico, pelo fato de este ser um dos poucos obstáculos ao flerte do Flamengo com os fascistas do Rio de Janeiro, sejam os que estão com Bolsonaro, sejam os que se bandearam para o lado do governador Wilson Witzel, cuja polícia militar vem, em suas operações, matando pessoas justamente em territórios onde o time mais angaria torcedores. Se esse técnico perdesse aquele jogo, o Flamengo sofreria o rompimento da pequena barragem que –não só nele, mas em todo e qualquer time de futebol masculino– contém seus rejeitos tóxicos.

Portanto, todas as pessoas daquela sala da casa de Eduarda foram quase ao orgasmo quando Gabigol aparentemente tratou com desdém –quase com nojo mesmo– o gesto populista do governador fascista Wilson Witzel, que se ajoelhou diante dele em campo depois da vitória do Flamengo. Gabigol seria, enfim, o atleta do futebol brasileiro que esperávamos depois de Sócrates: aquele que, graças ao seu talento, visibilidade e dinheiro, mas sobretudo por princípios éticos, rejeitaria veementemente a bajulação de tiranos e se colocaria ao lado da democracia e dos mais fracos. O jogador seria, naquele momento e no terreno do fascismo, a extensão dos sentimentos de todos os que lutamos pela democracia no Brasil.

A foto em que Gabigol aparece sorridente ao lado de Wilson Witzel, publicada hoje, deu um banho de água gelada nas expectativas antifascistas dos flamenguistas democratas e membros das minorias sexuais. Gabigol não me decepcionou porque não tenho expectativas políticas positivas em relação a jogadores de futebol brasileiro e este hoje só me interessa como chave de interpretação da cultura (à distância). Porém, ainda que o jogador não tivesse apreço pelo fascismo, este saberia como obrigá-lo a negar publicamente esse desapreço.

A foto de Gabigol com Witzel é só a prova de que não podemos dar certas batalhas como vencidas a priori.

Sempre existem as traições. E sempre existem as coerções.

Luta que segue!

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.