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Jean Wyllys

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A regra do jogo

UOL Noticias

2012-06-20T19:15:56

12/06/2019 15h56

"Por que você acredita que, dessa vez, as revelações estarrecedoras de The Intercept, vão mudar algo e/ou atingir pra valer esses golpistas e fascistas que tomaram o poder no Brasil?", perguntou-me Alan, um amigo que ama futebol, torcedor do Galo, de Minas Gerais.

Respondi-lhe:

Acho que uma luz solar se levantou no horizonte. As nuvens de chumbo já nos permitem ver um clarão, um prenúncio de que a tempestade escura não durará o tempo da última, daquela que resultou em torturas, censuras, assassinatos, desaparecimentos forçados e voos da morte.

Não sabemos ao certo quando o céu se abrirá, mas sabemos que vai se abrir, sim. E esse clarão são as revelações – a prévia que foi nos apresentada no último dia 9 de junho e as que estão por vir – de The Intercept. Como eu disse em meu último texto aqui publicado, todo mundo sabia que todo mundo sabia, mas agora é diferente: há provas; há registros inegáveis do histórico conluio de "facções" da elite brasileira contra governos que produzam justiça social e reduzam as desigualdades social, racial e de gênero.

Dessa vez, há provas sobre crimes praticados (da prevaricação à prática de grampos ilegais, passando pela deliberada imputação, com provas forjadas, de crimes a adversários políticos – e, sabe-se lá, que outros crimes mais a Lava Jato praticou; só The Intercept nos dirá nos próximos dias, em episódios de uma série que tem nos deixado em transe).

Dessa vez é diferente. E o porta-voz é outro. E os ouvintes (e leitores e espectadores, já que o material "interceptado" por Glenn Greenwald é multimídia segundo ele) não se resumem nem se limitam a nós, brasileiros: o mundo democrático é a plateia dessa vez.

Em outros lugares do mundo, conluios, conchavos e estruturas mafiosas dentro dos sistemas políticos também têm solapado governos populares (não populistas!), mais preocupados com equidade e justiça. As forças democráticas do mundo, mesmo quando envolvidas antes de tudo em transações comerciais e em negócios, querem operar dentro de um jogo com regras que sejam respeitadas. Querem ganhar ou perder sem fraudes. Querem seguir respeitando o jogo, porque jogar, além de ser agradável por dar sentido à existência, é inevitável. "Que há de bom nisso tudo, oh, vida? (…) Que poderoso jogo da vida continua", já disse Walt Whitman.

E quem está nesse jogo quer ter a garantia mínima de que suas regras são respeitadas pelos times em cena, não importa em qual divisão eles joguem, se na várzea (ou melhor, se se trata de "pelada" ou "baba", como se chama, respectivamente, no Rio e na Bahia os jogos em campos de barro de periferias) ou na Copa do Mundo. É esse fato que nos mostra que o céu vai se abrir: os outros grandes times em cena não querem ver a fraude que se passa no Brasil se repetir em seus campeonatos. Esses times não querem ser vítimas de cartolas, juízes e bandeirinhas ladrões. Esses times não querem jogadores de seu time jogando contra este. Não querem ver suas grandes estrelas tiradas de cena por golpes abaixo da cintura. E é isso que me faz pensar, com Renato Russo, que "mudaram as estações, nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu: está tudo assim tão diferente".

O desespero dos que estavam fraudando ou desrespeitando as regras do jogo em favor de seu time (Greenwald prefere usar a palavra "facção") é evidente. E têm que se desesperar mesmo! Logo, o que resta aos membros desse time ladrão (porque desrespeita as regras do jogo: algo que me parece muito pior do que superfaturar uniformes e chuteiras ou pegar suas sobras e distribuir entre torcedores e jogadores pobres) é, como se faz no futebol mesmo, apelar à homofobia, principalmente quando o jogador que está brilhando em campo é uma bicha.

A esses maus jogadores (sem talento nem habilidades) e torcedores (sem espírito esportivo, violentos), só resta proferir em coro o insulto homofóbico: "Greenwald é viado, casado com o deputado David Miranda, que, por sua vez é suplente de Jean Wyllys, outro viado!". E, claro, ameaçar de morte os viados (no meu caso, as ameaças em vez de me afastarem de vez do jogo, converteram-me em comentarista internacional de campeonatos locais e mundiais, sorry!)

Para tentar esconder que seu time é ladrão, desrespeitoso das regras do jogo, comprador de jogadores e que prejudicou a estrela de um dos times adversários antes do campeonato; para esconder essa sujeira, começaram a gritar em coro "Viado! viado!". Ora, viado, sim! Com orgulho! Greenwald e Miranda são casados com orgulho e formam uma linda família. Mas aceitem que é esse viado que virou o jogo e está desmascarando esse time de canalhas.

Aí reside meu otimismo. É a partir do futebol – esporte do qual nunca gostei por causa de sua homofobia e misoginia histórica (em que pesem o sucesso da seleção feminina e a existência de times e de uma ou outra torcida gays) – é a partir desse esporte que eu consigo vislumbrar que as revelações de The Intercept ajudarão a restituir o jogo dentro de regras limpas; ajudarão a manter o estádio em paz de novo e o prosseguimento dos campeonatos; enfim, que ajudarão a recompor nossa combalida república democrática, golpeada por times ruins e torcidas de arruaceiros.

E, de quebra, daremos passos para frente no sentido do respeito à comunidade LGBT: sim, agora todos sabem que nós contamos nesse jogo e não podem mais nos subestimar.

E, por fim, eu que não gosto de futebol, mas respeito muito quem gosta dedico esse texto a alguém que gosta muito, uma estrela que foi prejudicada pela Lava Jato antes do campeonato do qual seria o artilheiro de novo: Lula!

Lula livre!

O jogo continua.

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.