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Jean Wyllys

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A força bruta não apagou Marielle Franco

Jean Wyllys

14/03/2019 04h00

(Foto: Arquivo Pessoal)

Além de me deixarem estarrecido, as notícias sobre o planejamento detalhado da execução fria e brutal de Marielle Franco e Anderson Gomes, por parte dos sicários que a perpetraram há um ano, me levaram de volta à noite daquele 14 de março sombrio, que eu, como outros milhões de brasileiros, gostaria de não ter vivido.

Apesar de fazer sangrar uma ferida que nunca se fechou, rememorar a maneira singular como experimentei aquele horror é também uma forma de evitar que outras pessoas sofram algo semelhante no futuro e, ao mesmo tempo, um combustível à luta por justiça. Afinal, a minha arma em defesa de Marielle Franco é o que a memória guarda.

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Recebi a notícia da execução da Marielle por telefone. Quem me deu a notícia foi meu assessor, Bruno Bimbi. Uma frase seca (não por insensibilidade, longe disso, mas por choque): "Jean, mataram Marielle". Seguiu-se um silêncio entre nós dois que pareceu tão grande quanto a distância que nos separava: ele estava no Rio e eu em Brasília. Perguntei incrédulo e meio tonto: "Como assim mataram Marielle, Bruno? Que loucura é essa?".

Eu queria que fosse mentira dele. Eu queria que ele tivesse dito outra coisa: ainda que ele tivesse me dito algo grave, que ao menos ela estivesse viva nessa notícia ruim, que tivesse chance de sobreviver. Mas não. Ela havia sido assassinada num emboscada. As lágrimas rolavam de meus olhos sem esforço. Senti o peito se apertar como se fosse enfartar. A voz trêmula pedia detalhes que explicassem aquele absurdo: "Foi assalto? Troca de tiros entre polícia e traficantes? Bala perdida?".

Nada disso. Marielle fora executada. E junto com ela, seu motorista Anderson Gomes. Sobreviveu por milagre (sim, eu acredito em milagres do universo, pisciano que sou) sua assessora Fernanda. Desliguei o telefone. Sozinho em casa, dobrei-me sobre meu corpo e gritei. Gritei. Senti como se as balas me atingissem. Pensei que fosse morrer daquela dor que parecia atuar no corpo, mas que, na verdade, dilacerava a minha alma. Liguei para meus amigos mais próximos em Brasília – Flavio, Noêmia, Sandro Lobo e Marilda – porque não podia morrer ali, só.

Enquanto esperava por eles, dobrado sobre mim mesmo, temendo que a qualquer momento sicários invadissem meu apartamento e me matassem como o fizeram com minha amiga, pedi ao deus tempo que intercedesse. Como numa canção que muito me comove, perguntei "oh, tempo amigo, por que você não fez a bala parar?".

Queria voltar atrás no tempo e reencontrá-la quatro dias antes, 10 de março, dia de meu aniversário, em São Paulo, linda, "criloura", como ela se referiu a seu lindo cabelo crespo descolorido quando a elogiei, com o sorriso de sempre; abraçá-la como o fiz antes, mas, dessa vez, dizer para ela: "Mari, não vá àquela agenda; não passe por aquela rua; fique em casa e, doravante, se proteja". Um delírio em meio à dor. Uma fantasia para aliviar o enorme sofrimento.

Meus amigos me informaram que as ruas das principais cidades já estavam tomadas de gente. "Afinal, há mais gente que se importa", pensei. Sem dormir durante toda noite, olhos inchados de um choro que retorna como água de fonte, sempre que a vejo em fotos, sempre que penso nela, subi à tribuna da Câmara (não conseguira voo para voltar ao Rio e participar fisicamente de seu velório e enterro; e também não sei se gostaria de ter participado; queria me poupar do apagamento que alguns canalhas poderiam fazer da linha que separa a presença solidária da exposição eleitoreira) e reivindiquei ao presidente Rodrigo Maia a criação imediata de uma comissão externa que acompanhasse as investigações daquele crime brutal. Ele atendeu prontamente.

E pelos meses seguintes eu presidiria essa comissão, cumprindo o papel que me cabia na cobrança por justiça. Nesse curto discurso na tribuna – como me demorar em palavras, quando tudo que eu sentia era dor, raiva e medo? – eu disse às centenas de populares presentes no plenário algo mais ou menos assim: "Marielle sucumbiu aos tiros, mas as ideias são à prova de balas! Suas ideias continuarão vivas! Saibam os canalhas que lhe mataram!".

Sim, Marielle Franco vive por meio de suas ideias. Vive em mim. Em cada um que a louva e (re)encarna suas ideias, sua visão inclusiva de mundo. Marielle vive em nós porque nem mesmo a força bruta pode um sonho apagar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.