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Jean Wyllys

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A doença como metáfora

UOL Noticias

04/10/2019 17h38

A peça "Lembro todo dia de você"

Aos 12 anos de idade, pouco antes de entrar na missa dominical da igreja matriz de Alagoinhas (BA) para servir como coroinha, ouvi padre José comentar com uma das ministras da eucaristia sobre uma doença contagiosa que estava matando os gays.

"É um castigo", disse a ministra.

Eu estremeci de pavor. A essa altura da minha vida, a homofobia social já havia deixado claro para mim, por meio dos insultos contra meus trejeitos afeminados, que eu era gay. Senti-me, então, profundamente ameaçado e sentenciado à morte naquele momento. E minha vida nunca mais foi a mesma.

Quando fiz sexo com penetração com um homem pela primeira vez, aos 19 anos, mesmo tendo usado camisinha, entrei na paranoia de que havia me infectado pelo HIV. E passei três meses mergulhado numa angústia aterradora, produzindo sintomas imaginários em meu corpo e esperando pela morte, até que decidi fazer o exame…

A espera pelo resultado parecia uma eternidade dolorosa. Quando ele veio e eu constatei que não havia me infectado, que era soronegativo, o novo homem que nasceu daí tinha uma enorme vontade de saber sobre a síndrome e a epidemia para impedir que outros gays passassem pelo que passei e para derrubar, por meio do esclarecimento, os estigmas e preconceitos que ela produzia.

Para minha geração, a epidemia de Aids e a infecção pelo HIV representaram um mal ambivalente. Se, por um lado, do início dos anos 80 ao fim dos anos 90, o vírus e a síndrome fortaleceram a homofobia em suas múltiplas expressões e fizeram pesar, sobre gays, travestis e transexuais, novos e terríveis estigmas sociais e doenças da alma; por outro, a infecção e a epidemia foram as causas de uma identificação coletiva sem precedente e o ponto de partida para uma mobilização política pelos direitos à vida e à cidadania plenas da comunidade sexo-diversa (ou de dissidentes sexuais) que nunca mais parou. A Aids foi um mal terrível que exigiu que nos constituíssemos num bem maior para enfrentá-lo.

E este mal já estaria completamente derrotado se não fossem três inimigos resistentes e agora fortalecidos pela eleição dos populistas de ultra-direita e fascistas: 1) a ignorância, 2) o medo e 3) a desigualdade social.

A ignorância se manifesta agora não só como o desconhecimento, por parte principalmente das pessoas pobres, sobre infecções sexualmente transmissíveis e que resulta no aumento do número de HIV positivos e doentes de Aids, mas como uma política do governo fascista de Bolsonaro que deseja banir o tema da esfera pública, ameaçando a saúde coletiva.

A ignorância motivada desse governo se materializa, por exemplo, na censura –sim, censura (ainda que esta tente se disfarçar)– da Caixa Cultural ao espetáculo "Lembro todo dia de você", cujo personagem principal é um homossexual soropositivo.

É importante que se diga que o governo Bolsonaro vem censurando não apenas expressões artísticas de temática LGBT. A Ancine encontrou um meio de impedir a estreia, no próximo dia 20 de novembro, do filme "Marighella", de Wagner Moura; e há três dias o CCBB do Rio de Janeiro censurou o premiadíssimo espetáculo "Caranguejo overdrive", de Pedro Kosovski, inspirado na "Geografia da fome" de Josué de Castro e no manifesto do movimento musical Manguebeat. É chocante que não haja no Ministério Público e na imprensa reações contundentes contra a nova cara da censura.

O medo segue atuando em nós de dentro para fora, impedindo que as pessoas façam o teste de HIV por causa do estigma que mesmo a pessoa mais ativista e orgulhosa de sua orientação sexual não consegue superar totalmente.

O status de HIV positivo produz um segundo armário –dessa vez não só para os homossexuais que convivem com o vírus mas também para os heterossexuais soropositivos– que só há pouco tempo vem se abrindo. Esse medo segue existindo apesar das conquistas em tratamento médico que transformaram a convivência com o HIV em algo possível e totalmente compatível com uma vida saudável (desde que se faça a adesão a ele).

Contudo, o neoliberalismo está transformando esse tratamento da Aids em um privilégio de pessoas de classe média e ricas bem-informadas. E, no caso do Brasil, será completamente um privilégio dessas classes se Bolsonaro, Paulo Guedes e Mandetta conseguirem, em favor dos planos de saúde privados, desmontar totalmente o SUS e a política pública de HIV/AIDS conquistados nos governos FHC e Lula.

Travestis prostitutas, mulheres pobres (e pretas especialmente), gays pobres seguem sendo as vítimas da epidemia por causa da ignorância combinada com dificuldade no acesso aos serviços de saúde em razão da desigualdade social.

Ministrei, na pós-graduação em HIV/AIDS da Faculdade de Medicina da UniRio, três aulas-conferência sobre as relações entre a morbidade da Aids e os discursos em circulação construídos em torno e a partir dela (na verdade, trata-se de um curso que montei e batizei de "Formas de saber, formas de adoecer", tomando emprestado o título do livro de Roberto Corrêa dos Santos sobre a tuberculose na literatura do século 19). Posso dizer, portanto, que é difícil não recorrer à metáfora da guerra na hora de abordar a problemática da epidemia em palavras.

Em sua obra-prima sobre o câncer, "A doença como metáfora", a crítica literária e ensaísta estadunidense Susan Sontag diz que, para o bem dos pacientes, devemos evitar metaforizar a enfermidade. Mas, ainda que metáforas que ampliem o potencial de estigma e morbidade de uma doença devam ser evitadas (e uma de nossas ações como movimento político organizado contra a epidemia de Aids foi justamente banir metáforas como "câncer gay", "peste gay" e "grupo de risco" do discurso médico e do noticiário), ainda que devamos se em algumas ocasiões contra a interpretação, a escritora reconhece que é impossível pensar sem metáforas, daí a da guerra me ser útil neste momento.

Precisamos fortalecer nossas hostes contra o governo Bolsonaro e sua tentativa de impedir que vençamos os três inimigos resistentes. No que diz respeito à ignorância motivada na forma da censura, devemos financiar coletivamente espetáculos, filmes, livros e shows censurados em editais públicos; fazer mutirões para pagar as entradas em filmes como "Carta para além dos muros" e peças como "Três formas de tocar no assunto", por exemplo; ocupar espaços alternativos com nossas expressões artísticas; divulgar os espetáculos, livros e shows em nossas redes sociais e, sobretudo, prestigiá-los.

A metáfora que melhor define o governo Bolsonaro é a doença. Este é uma doença grave e com alta taxa de morbidade. Mas há cura para ela. E essa cura depende de nossa disposição para constituir um bem coletivo maior contra esse mal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.