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Jean Wyllys

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Histórico

A mentira fascista

Jean Wyllys

04/07/2019 00h13

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) durante o G20 (LUDOVIC MARIN/AFP)

Jair Bolsonaro faz um governo de mentira. De mentiras. Eleito por uma campanha feita à base de fake news (notícias falsas), insultos a adversários e discursos de ódio contra LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros), mulheres, quilombolas e comunistas, uma vez presidente da República, Bolsonaro decidiu governar o país com os mesmos ingredientes, cercando-se de gente tão mau-caráter quanto ele para levar adiante seu empreendimento fascista.

Sim, embora a imprensa séria brasileira ainda tenha pudores em usar esta palavra (e mesmo a expressão "governo de extrema-direita", usada pela imprensa europeia para se referir ao governo Bolsonaro), a verdade é que o país está sob um governo fascista. E se, antes, faltavam dois elementos –o antissemitismo e o uso do aparato do Estado, em especial as polícias, para cercear a imprensa e perseguir a dissidência política– para caracterizar, de uma vez por todas, Bolsonaro e sua hoste como fascistas, agora já não faltam mais:

1) O site do Exército Brasileiro e seu perfil oficial no Twitter decidiram homenagear e tratar como "mártir" o nazista Eduard Ernest Thilo Otto Maximilian von Westernhagen, condecorado por Hitler e que foi morto no Brasil por membros do Colina, grupo de resistência à ditadura militar e seu terrorismo de Estado.

O empreendimento nazista não se assentava só na ideia de "purificação racial", mas também na de "correção sexual". Este empreendimento exterminou cerca de 10 milhões de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945): dos quais 6 milhões eram judeus e os demais eram homossexuais, ciganos e comunistas.

A homenagem que o Exército Brasileiro presta a um oficial condecorado pelo líder (o Führer) desse empreendimento monstruoso é mais que um acinte à memória de suas vítimas: é antissemitismo maldisfarçado.

Eu gostaria muito de saber o que os membros da comunidade judaica que votaram em Bolsonaro estão pensando dessa homenagem ao nazista por parte do Exército Brasileiro (muitos inclusive riram de seu insulto aos quilombolas no clube Hebraica do Rio de Janeiro). Mas, independentemente da resposta, já sabemos aonde o antissemitismo dos nazistas levou os judeus da Europa do início dos anos 1940.

2) Desmascarado em sua conspiração contra o ex-presidente Lula e a democracia brasileira quando juiz da Operação Lava Jato, denunciada por The Intercept, o ministro da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro, decidiu usar a Polícia Federal para tentar intimidar o jornalista vencedor do Pulitzer Glenn Greenwald, editor do prestigiado site de notícias, e para me perseguir a partir de uma teoria conspiratória mentirosa.

O porta-voz das notícias de que a Polícia Federal se prestará a esse papel deplorável é o site de extrema-direita O Antagonista, espécie de esgoto noticioso na internet brasileira e fábrica de fake news e de destruição de reputações por meio de mentiras, beirando muitas vezes a chantagem de figuras públicas através desse expediente criminoso.

Sim, foi o Antagonista que noticiou que a Polícia Federal, sob orientação de Sergio Moro, pediu ao Coaf a movimentação bancária de Greenwald; e, hoje, noticiou que, a pedido de um deputado do baixíssimo clero da Câmara Federal e integrante da base do governo, José Medeiros, a mesma Polícia Federal irá investigar a fake news de que eu teria vendido meu mandato a Greenwald para que este o desse de presente a seu esposo, o deputado David Miranda.

Ótimo! Que a Polícia Federal investigue. Se a investigação for séria, se a PF não recorrer ao expediente de Moro na condução da Lava Jato, ou seja, à "lawfare", à fabricação de "provas", à mentira descarada; se a Polícia Federal agir como uma instituição honesta e republicana, ela não vai encontrar nada que comprove a teoria conspiratória mentirosa.

E aí, ao contrário do então reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancelier, que se matou em 2017 após ser acusado de corrupção e preso injustamente pela Polícia Federal, eu vou mover um processo contra o Estado brasileiro exigindo deste, pelos danos morais e materiais causados pela Polícia Federal, a mim e a minha família o triplo do montante pelo qual me acusam mentirosamente de ter vendido meu mandato. O deputado José Medeiros, que pediu a investigação, também não escapará da reparação aos danos causados a mim.

O Estado brasileiro e a Polícia Federal estão a par dos verdadeiros motivos que me levaram a deixar o país. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) lhes entregou um contundente relatório das gravíssimas ameaças de morte que minha família e eu vínhamos sofrendo e lhes exigiu uma medida cautelar para nos proteger, que foi tão ignorada quanto as denúncias formais anteriores que eu havia feito.

Se a Polícia Federal –que nada fez para investigar as ameaças de morte contra mim, mesmo sabendo que eu vivia sob escolta da Polícia Legislativa por determinação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e que ignorou as recomendações da CIDH da OEA de proteção à minha vida– decide agora gastar recursos públicos numa investigação motivada por uma mentirosos teoria conspiratória divulgada por um perfil apócrifo de Twitter, é porque bem-intencionada essa polícia não está.

Desde já, acionarei todos os organismos internacionais de defesa dos direitos humanos; denunciarei formalmente essa perseguição política, primeiramente à própria CIDH da OEA, e, se preciso for, levarei o caso à Corte. O mundo democrático saberá dessa perseguição política.

Do lado de cá, ninguém ignora que se trata de uma tentativa de desviar a atenção da opinião pública dos crimes perpetrados por Sergio Moro como juiz da Lava Jato e denunciados por The Intercept.

Eu gostaria que o juiz Moro entregasse seu telefone celular a uma perícia séria que pudesse confirmar ou não o que denuncia The Intercept. O mesmo eu sugiro aos procuradores do Ministério Público Federal que integraram a Lava Jato.

À imprensa séria brasileira eu pergunto: até quando passará pano para as recorrentes mentiras e calúnias perpetradas pelo presidente da República e seus três filhos contra mim? Quando é que isso será abordado com a contundência que deve ser tratado? Até quando vocês vão fingir não notar que Moro está tentando intimidar Greenwald e que isso acaba por intimidar toda a imprensa livre?

Dos imbecis bolsonaristas nas redes sociais eu gostaria de saber se eles não se cansam de acreditar na fantasia de que minha "casa vai cair" a partir das mentiras que espalham contra mim. Essa já é a quinta mentira desde que eu saí, e minha casa continua de pé!

E, por fim, ao esgoto noticioso que chantageou até ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) com suas fake news e "jornalismo" de distorções e teorias conspiratórias, eu queria sugerir a abertura voluntária dos sigilos fiscais e bancários de seus integrantes para provar que todo o tempo e recursos que estes gastam na tentativa de destruir a reputação de quem quer que se oponha ao fascismo do governo Bolsonaro estão motivados apenas por afinidades ideológicas.

Quem não deve não teme.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.