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Jean Wyllys

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O closet de Bolsonaro: uma economia de atração e repulsa

UOL Noticias

19/08/2019 11h48

Temos um desafio no momento. Resta-nos, todavia, descobrir se se trata apenas da conhecida expressão espontânea de sua burrice e fantasias sobre masculinidade ou se estas características de Bolsonaro estão sendo instrumentalizadas por estratégias geopolíticas que desejam transformar o Brasil em colônia dos Estados Unidos.

Enquanto não descobrimos, permanecemos na encruzilhada para a qual é urgente pensar uma saída: não podemos nem devemos ignorar a violência verbal do presidente da República, mas, ao dedicarmo-nos à necessária tarefa de desconstruir este mal, permanecemos onde Bolsonaro ou quem está instrumentalizando sua maldade quer que permaneçamos.

Bom, mas, como disse antes, é impossível ignorar seus discursos e atos. Sendo assim, vou me ater, agora, aos que violentam os direitos civis e a dignidade humana da comunidade dispersa da qual faço parte, a comunidade sexo-diversa, a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros, transexuais e pessoas "desviadas" em termos de orientação sexual e identidade de gênero (as pessoas queer).

Garimpo na Ancine

Bolsonaro disse que deliberadamente garimpou, entre os projetos de filmes que aguardavam uma resposta da Agencia Nacional do Cinema (Ancine) em relação ao pedido de captação de recursos por meio da Lei do Audiovisual, para vetá-los, aqueles cujo conteúdo se referem à comunidade LGBTQ. Atentem para este detalhe: o presidente da República foi garimpar deliberadamente os projetos. Ele não apenas disse que os vetaria como também os difamou, um a um, recorrendo à homofobia social que garantiu o sucesso de suas fake news entre a maioria das pessoas durante a campanha eleitoral de 2018, e, desde que eclodiram as denúncias (com provas incontestes) da ligação de sua família com o crime organizado, assegura-lhe uma milícia odiosa nas redes sociais.

Ainda há pouco li a notícia de que Bolsonaro, "em busca de privacidade", teria se "refugiado" no closet (armário) de seu quarto no Palácio Alvorada, donde, doravante, segundo a notícia, fará as transmissões de seus discursos.

Ora, instrumentalizados ou meramente espontâneos, esses dois atos são sintomas de uma ansiedade sexual; de uma masculinidade tão tóxica quanto frágil, assombrada pelo fantasma da homossexualidade, ou, mais especificamente da penetração anal; como, de resto, é a masculinidade dos homens heterossexuais que defendem o presidente da República, insultam-me, ameaçam-me e me difamam com mentiras nas redes sociais.

Ninguém vai garimpar deliberadamente, em um arquivo ou lista, projetos de filmes com temas ligados à sexualidade de LGBTS se não sentir, consciente ou inconscientemente (no sentido psicanalítico de inconsciente) uma atração por esta sexualidade, ainda que esta atração seja expressa consciente e publicamente na forma da repulsa.

No armário

Qualquer pessoa minimamente informada e com amigos na comunidade LGBTQ sabe que o closet (o armário) é a metáfora do lugar (mas, em alguns casos, o lugar real) subalterno onde a sociedade da dominação masculina heteronormativa – a sociedade que trata a heterossexualidade e a cisgeneridade como destinos naturais e as impõe por meio de diferentes coerções, começando pela coerção linguística, ou seja, pelo o insulto – o lugar onde esta sociedade quer nos prender.

É sintomático (no mínimo, curioso), portanto, que Bolsonaro escolha o armário para buscar "privacidade" e fazer as transmissões de seus discursos homofóbicos. O presidente da República tem, como quase todos os homens héteros com ódio ou aversão à homossexualidade, uma atração pelo que imaginam que fazemos no armário. Eles querem interditar – e por muito tempo interditaram por meio de diversas expressões de violência – nossa presença nos espaços públicos e de poder, empurrando-nos para o armário desde a primeira expressão de nossa orientação sexual e/ou identidade de gênero; mas, ao mesmo tempo, desejam saber o que se passa dentro do closet. Não por acaso, as saunas e os espaços de cruising ("pegação") gays estão cheios de homens heteros – muitos deles casados com mulheres – que, após o gozo, convertem-se em agressores ou assassinos de gays e travestis.

Trata-se de uma economia sexual de atração e repulsa em relação à homossexualidade e transgeridade. Economia engendrada por uma masculinidade e um patriarcado nefastos que negam, aos homens héteros de uma maneira em geral, o direito a uma sexualidade mais livre e uma relação igualitária com as mulheres (a maioria destas transformada, por esses mesmos patriarcado e masculinidade, em meios de reprodução da dominação masculina, como bem explicitaram o sociólogo francês Pierre Bourdieu e a historiadora e escritora americana Rebecca Solnit).

Macho em xeque

Homens héteros homofóbicos deploráveis e abjetos como Bolsonaro são os que mais se traem em relação a essa economia. O insistente discurso público da repulsa em relação principalmente ao sexo anal entre homens é a prova mesma da atração que sentem por essa prática sexual.

Estão permanentemente assombrados pela liberdade sexual dos "desertores do patriarcado" – nós, os gays – e das mulheres lésbicas que excluem, de suas relações, o pau do macho. Nós colocamos em xeque suas convicções sobre a heterossexualidade ser um destino natural e mostramos que o sexo pode ser só recreativo e não servir para a opressão das mulheres nem para a transmissão da propriedade privada.

Instrumentalizado politicamente por terceiros ou apenas espontâneo, o ódio de Bolsonaro aos homossexuais é, ao contrário do que pensam os machos que se vêem, nele, refletidos (com seu culto às armas e a carros sem controle), uma prova de sua fragilidade diante de nós, LGBTS. Mais que isso: trata-se da vontade inconsciente de experimentar nossas práticas sexuais, de saber porquê, apesar de toda violência deles contra nós, seguimos satisfeitos sexualmente e lutando pelos mesmos direitos que eles.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.