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Jean Wyllys

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Operação Cosa Nostra

UOL Noticias

2010-06-20T19:18:35

10/06/2019 18h35

O procurador Deltan Dallagnol (à esq.) e o atual ministro da Justiça, Sergio Moro (Jorge Araújo/Folhapress)

Todo mundo sabia que todo mundo sabia… Mas agora todos passamos das convicções às provas!

As revelações do site The Intercept Brasil abalaram as redes sociais desde ontem e deixaram as cenas política, jurídica e jornalística entre a polvorosa e o silêncio estupefato. Escancaram, com provas incontestes, aquilo que todos os atores destas três cenas já sabiam: o atual ministro da Justiça de Bolsonaro e ex-juiz federal de Curitiba, Sergio Moro, rompeu limites da legalidade, da ética e da moral ao conduzir, com o procurador do Ministério Público Federal Deltan Dallagnol, operações fraudulentas e julgamentos viciados –combinados entre juízo e acusação, com roteiro preestabelecido– para impulsionar o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e, principalmente, prender o ex-presidente Lula.

Ou seja, Moro, Dallagnol e outros membros da Operação Lava Jato agiram como mafiosos para tentar destruir o Partido dos Trabalhadores e, de lambuja, encher os bolsos de dinheiro com palestras dirigidas à metade idiota e antipetista da classe média e a plutocratas hipócritas do eixo Rio-Curitiba-São Paulo (sem contar o fundo privado que eles queriam criar com o dinheiro da Petrobras e que seria, por eles, administrado). Uma operação cosa nostra!

Além de afirmar que as denúncias estão apenas começando, o editor do The Intercept Brasil Glenn Greenwald já informou –não só para garantir o acesso de jornalistas às informações, mas até mesmo como forma de se prevenir de ameaças e ataques a ele e seus repórteres– que o arquivo com as provas dos crimes perpetrados pelos protagonistas da Operação Lava Jato se encontra em lugar seguro e é "um dos maiores da história do jornalismo", contendo "segredos explosivos" em chats, áudios, vídeos, fotos e documentos sobre Deltan Dallagnol, Sergio Moro e "muitas facções poderosas".

A utilização da palavra "facções" pelo jornalista Glenn Greenwald, já premiado com um Pulitzer, não é mero acaso. E não deixa de ser irônico que, após Dallagnol ter se referido à Lava Jato como "a ponta de um iceberg", o editor do Intercept Brasil tenha nos mostrado que mergulhou fundo e descobriu o tamanho do iceberg Lava Jato e o perigo que este representa para a democracia brasileira, já ferida de morte pelo procurador.

Como já disse antes, essa relevação produziu desde a polvorosa até o silêncio estupefato. The Intercept Brasil começou a publicar sua série de matérias às 18h de ontem. Contudo, até as 22h30 –ou seja, quatro horas e meia depois– apenas a Folha de São Paulo e o UOL, por meio dos perfis e da coluna de Mônica Bergamo, havia escrito algo sobre o escândalo que, sob qualquer perspectiva, é de relevância jornalística internacional. Os sites e perfis nas redes sociais do Estado de São Paulo, dos portais de notícias G1 e R7 e do jornal O Globo estavam mergulhados num silêncio ensurdecedor, que é significativo, quase um sintoma.

A demora de parte da mídia comercial em repercutir The Intercept Brasil era compreensível. A farsa de Moro, Dallagnol e demais membros da Lava Jato não teria ido tão longe –ao ponto de eleger como presidente da República um fascista que leva o país à bancarrota– se a maior parte da imprensa comercial não fosse tão antipetista nem tão partidária.

Até as 22h30 de ontem, esses veículos da imprensa comercial que se encerravam em silêncio pareciam estar sem redação, literalmente: estavam sem palavras, argumentos, enquadramentos e linhas narrativas que "explicassem" e "justificassem" essa ação mafiosa da Lava Jato, à qual serviram de tribuna acrítica. Na verdade, esperavam que os implicados no escândalo lhes dessem a linha. E eles não falharam em fazê-lo, ainda que de maneira pouquíssimo convincente.

O Show da Vida, o Fantástico, foi o primeiro a adotar uma das perspectivas sobre os crimes da Lava Jato revelados pelo The Intercept Brasil que dividiram a imprensa comercial brasileira (e sobre as quais discorrerei logo abaixo):

"Advogados ouvidos pelo Fantástico nao veem ilegalidade, apenas desvios éticos na conducao do ex-juiz". Tratava-se do Show da Vida, com seus advogados de sempre e sempre dispostos a dizer o que o Fantástico quer que eles digam, já começando a tentar emplacar a narrativa de que Moro não é um criminoso, mas apenas "antiético".

Desta vez não, Show da Vida! A independência entre os atores do devido processo legal é a base do que chamamos de Justiça. E até mesmo seus advogados de prontidão sabem disso e, se negam esse princípio, são incompetentes ou desonestos intelectualmente.

A Constituição Brasileira e o Código de Processo Penal são claros, sem qualquer ambiguidade, em afirmar que as figuras do acusador e do julgador não podem se misturar, que cabe ao juiz analisar de maneira imparcial as alegações da acusação e da defesa, sem interesse em qual será o resultado do processo.

Ora, as conversas entre Moro e Dallagnol –reveladas pelo The Intercept Brasil– demonstram que o atual ministro da Justiça se intrometeu no trabalho do Ministério Público (o que é proibido, sob pena de tornar todos os seus atos nulos), atuando informalmente como um auxiliar da acusação. E isso não é só uma questão de ética: é também uma questão de legalidade, sim!

Como disse acima, a imprensa já se divide em duas narrativas, dado seu nível de independência ou de apoio ao conluio da Lava Jato: as relevações do The Intercept estão sendo tratadas tanto como "crime", com críticas às supostas ações de hackers, mas passam pano na conduta ilegal, imoral e antiética dos protagonistas da Lava Jato (essa é a narrativa da Globo, Estadão, Jovem Pan e, claro, dos próprios Sergio Moro e Deltan Dallagnol) quanto estão sendo tratadas como de "interesse público", em que as ações dos hackers se tornam algo irrelevante diante do fato escandaloso de um juiz, um procurador e outros servidores públicos estarem agindo como uma máfia para derrubar uma presidenta democraticamente eleita, prender um ex-presidente sem provas e intervir nos resultados de uma eleição que se avizinhava (essa narrativa correta, porque coerente, é a do The Intercept Brasil, daFolha de São Paulo e do UOL, da imprensa internacional, de prestigiados juristas e da maioria das redes sociais).

Ora, que moral tem a Rede Globo para adotar essa linha de narrativa se ela transformou em notícia um áudio obtido e vazado ilegalmente de forma criminosa pelos membros da Lava Jato? Se naquele momento o argumento do Jornal Nacional e do MPF era, para citar o próprio Dallagnol, a primazia do interesse público sobre a privacidade, por que, agora, o interesse público deveria se submeter ao direito à privacidade de servidores públicos agindo como mafiosos?

Enquanto tenta desqualificar a gravidade dos crimes vazados de que é acusado e reclama do vazamento, o ministro Moro usa seu conhecido canal de vazamento seletivo –o Antagonista– para fazer sua pífia tentativa de defesa. Entre cinismo e medo, eu aposto que Moro está com medo. A tentativa de desqualificar a denúncia é sintoma de desespero, já que Glenn Greenwald anunciou que está só começando. Hoje novas informações devem vir à tona. Melhor o ministro já ir se preparando!

Já Dallagnol ousou mais em seu cinismo: "Os procuradores da Lava Jato não vão se dobrar à invasão imoral e ilegal, à extorsão ou à tentativa de expor e deturpar suas vidas pessoais e profissionais", escreveu em seu perfil no Twitter.

Pode haver declaração mais canalha que essa? Imoral é Dallagnol. Ilegal é o que ele fez. Expor e deturpar vidas profissionais foram os verbos mais praticados pela Lava Jato contra pessoas, muitas delas com suas alegações de defesa ignoradas, como é o caso de Lula.

Para quem obteve e divulgou ilegalmente os áudios da conversa entre a presidenta Dilma e Lula durante as investigações e às vésperas do processo de impeachment, choramingar no Twitter sobre vazamento de um conluio mafioso é, no mínimo, cinismo canalha. E isso se se tratar mesmo de hackers, já que os dados podem ter sido entregues ao The Intercept por alguém de dentro da organização mafiosa.

Sobre o suposto "crime" cometido por essa fonte, Glenn Greenwald cita, em sua defesa, o próprio Deltan Dallagnol quando este buscou justificar o crime de obter e vazar ilegalmente os áudios de uma presidenta da República: "No conflito entre direito à informação sobre crime grave e direito à privacidade, ganha o interesse público". E Greenwald está certíssimo!

Por fim, perfis de bolsominions, perfis fakes e os robôs já iniciaram seus ataques na forma de insultos ao Intercept Brasil e a todos os perfis que estão repercutindo o conluio da Lava Jato contra Lula. Além de insultos, os robôs e bolsominions recorrem às fake news e às teorias conspiratórias para tentar intimidar o portal de notícias e as pessoas públicas que exigem explicações de Dallagnol e de Sergio Moro sobre seu conluio para prejudicar o ex-presidente. Só que, dessa vez, bolsominions imbecis e/ou mentirosos e os robôs com seus ataques orquestrados estão levando a pior. A espiral do silêncio não girou a favor de suas fake news e ameaças. A hashtag #VazaJato foi parar nos Trend Tropics do Twitter ainda ontem.

A Lava Jato –que há tempos já vinha dando sinais de agir como uma máfia– começou a ruir de vez. Sua atuação foi fundamental para a ascensão do fascismo bolsonarista, tanto que Moro virou seu ministro da "Justiça". Por isso, o ecossistema em favor do fascista, que age na superfície e nos esgotos das redes sociais, começou já ontem mesmo a se mover em defesa dos crimes da Lava Jato e na tentativa de intimidar quem os está repercutindo. Mas o ecossistema está levando a pior.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. LGBT com orgulho de si, exerceu dois mandatos como deputado federal e é cidadão do mundo.

Sobre o blog

Um blog que trata das diferentes expressões das políticas, identidades, afetos e artes que nascem das ou impactam as relações humanas. E também os espaços e ambientes em que estas se dão.