Jean Wyllys http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br Jean Wyllys é escritor, jornalista, mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da Bahia, criador, roteirista e apresentador do Cinema em Outras Cores e ativista de direitos humanos. Sat, 21 Sep 2019 19:48:30 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Ágatha http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/09/21/agatha/ http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/09/21/agatha/#respond Sat, 21 Sep 2019 19:48:30 +0000 http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/?p=262

Ágatha: algo bom, do bem, virtuoso

Quando postei o desenho da Mulher Maravilha em meu perfil no Instagram, eu ainda não sabia da morte de Ágatha, a garotinha de oito anos, baleada em ação da polícia militar do Rio de Janeiro no Complexo do Alemão.

Hoje, quando acordei e comecei a ver as notícias do Brasil, um país submetido ao retrocesso civilizatório e à barbárie pelos governos federal, estaduais e municipais de extrema-direita, vi, no perfil da escritora e jornalista Rita Lisauskas, uma foto em que Ágatha está vestida de Mulher Maravilha, riso largo, braceletes cruzados à frente do corpo, como o faz a heroína quando se defende de tiros…

Algo novamente se quebrou dentro de mim, como no momento em que soube do assassinato de Marielle Franco. As lágrimas vieram, incontroláveis. Essa imagem –Ágatha de Mulher Maravilha, sorrindo– é um soco no estômago de qualquer otimismo ou esperança. É possível ler, nesta foto, que a garotinha estava sendo educada para ter orgulho de si, de ser mulher, de ser mulher preta; estava aprendendo a lutar como uma heroína.

Sua morte precoce e violenta, portanto, não se resume à dor de sua família, à qual deixo minha solidariedade: assim como o assassinato de Marielle Franco, também uma mulher preta e da favela, o fim de Ágatha representa uma política de extermínio dos pretos pobres (os considerados excedentes descartáveis da sociedade de consumo do capitalismo neoliberal), disfarçada de “guerra às drogas” ou de “política de segurança”, e representa também uma política de mais obstáculos à mobilidade social e à conquista de novos espaços sociais e de poder por parte dos negros, em especial das mulheres pretas.

Ainda que não tenha sido intencional e planejada como a de Marielle Franco, a morte de Ágatha é resultado da mesma necropolítica, para citar o termo do filósofo camaronês Achille Mbembe, que eliminou a vereadora do PSOL em março de 2018. Por trás e como causas de ambas, há as mesmas forças políticas racistas e criminosamente organizadas que há anos parasitam os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário do Rio de Janeiro, num conluio nojento entre empresários, funcionários públicos e lideranças religiosas neopentecostais –forças políticas que chegaram ao Palácio do Planalto com a eleição de Bolsonaro.

Não é mero acaso que o Wilson Witzel que está em silêncio diante da morte de Ágatha tenha, durante a sua campanha eleitoral, estado ao lado de quem quebrou uma placa em homenagem a Marielle Franco. Trata-se de um sociopata com inclinações genocidas que leva ao paroxismo uma política em curso no Brasil desde o fim da escravidão. Um mentiroso racista que deseja interditar o futuro dos negros, em especial das mulheres pretas.

Sabemos que a eleição desse sujeito abjeto foi, assim como as dos Bolsonaro e demais políticos da extrema-direita, sustentada em notícias mentirosas e pânicos morais produzidos artificialmente; porém, é preciso se interrogar sobre o componente de identificação dos fluminenses (e dos cariocas em especial) que nele votaram, garantindo-lhe a vitória. Até que ponto o silêncio do governo não é o silêncio sorridente de boa parte desses eleitores?

E até quando estes vão crer que a violência do governo fascista de Witzel vai lhes poupar?

Quando eu era menino, eu queria ser a Mulher Maravilha, assim como a garotinha Ágatha. Seguramente, como toda criança (e todo criança tem imaginação e fantasias, embora boa parte dos brancos das classes alta e média ache que pobres em geral –e pobres pretos em especial– não têm infância ou não devem ter direito a ela), Ágatha acreditava que a roupa da heroína lhe dava superpoderes. Seu sorriso na foto é o de quem acreditava poder deter qualquer bala que lhe disparassem…

Sei que não serve de consolo à família, e não tenho a pretensão de que sirva (o que estas pessoas queriam era sua criança viva, como na foto!), mas Ágatha já é uma heroína que deve nos inspirar ações efetivas contra os governos Witzel e Bolsonaro, do pedido de impeachment à paralisação consecutiva de ruas e avenidas, passando por greves.

O nome Ágatha vem do grego e significa algo bom, do bem, virtuoso. Ela pode e deve continuar sendo tudo isso simbolicamente.

Ágatha presente!

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O olho da “questão Ciro” http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/09/16/o-olho-da-questao-ciro/ http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/09/16/o-olho-da-questao-ciro/#respond Mon, 16 Sep 2019 13:10:05 +0000 http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/?p=254

Ciro Gomes: pautas identitárias viraram tabu para o político

Ciro Gomes está com a libido retida naquela que Freud chama de “fase anal” do desenvolvimento psicossocial. Contém (nos dois sentidos desta palavra) uma misoginia que, todavia, foge do controle.

Sua tentativa de desqualificar a filósofa Márcia Tiburi –que foi candidata ao governo do Rio de Janeiro pelo PT nas últimas eleições– por meio de uma referência que esta faz ao cu em uma de suas muitas falas disponíveis na internet, essa tentativa de desqualificação falso-moralista é mais que uma grosseria típica de um machista inseguro diante do brilhantismo intelectual de uma mulher. Trata-se de um sintoma: os machos-adultos-brancos-sempre-no-comando estão neuróticos (no caso de alguns, psicóticos) com as conquistas de espaços de poder por parte das mulheres em geral, de LGBTs e de negros.

Em que pesem as enormes diferenças entre Bolsonaro e Ciro Gomes, sobretudo o verniz de “homem ilustrado” que o domínio dos conceitos de economia conferem a este último, a verdade é que ambos têm, em comum, essa ansiedade sexual diante do arruinamento do patriarcado sexista e heteronormativo.

Prestem bem atenção: com uma miríade de candidatos com falas realmente abjetas à sua disposição, que aludem a coisas realmente chocantes como o racismo e a homofobia, fora o fato de muitos desses candidatos serem corruptos e ligados a organizações criminosas, mesmo com este elenco à sua disposição, Ciro Gomes escolheu a honesta e intelectualmente sofisticada Márcia Tiburi para dar de exemplo do que “o eleitorado não quer”. Entre todas as declarações e análises da filósofa, sempre amparadas em sólida bibliografia, Ciro Gomes pinçou exatamente aquela em que Tiburi, explicando o campo da sexologia, faz referência ao cu (usando esta palavra, e não “ânus”).

Ora, ao fazer isso, Ciro Gomes me permite levantar duas hipóteses que não se excluem entre si, complementam-se:

1) A primeira é a de que, sabendo que Márcia Tiburi, Manuela D’Ávila, Maria do Rosário, Érica Kokay e eu fomos transformados, por meio de calúnias, deturpações e notícias mentirosas, em inimigos da “moral e dos bons costumes” da comunidade evangélica neopentecostal, terreno do bolsonarismo. Sabendo disso, Ciro Gomes usou Márcia Tiburi, de propósito, para “abrir diálogo” com esse setor conservador e anti-intelectual da sociedade brasileira; ou seja, ele está sendo oportunista e falso-moralista com o objetivo de ampliar seu eleitorado usando a filósofa como escada. Nesse sentido, já-já ele estará fazendo referências negativas a mim também.

2) A segunda hipótese é a de que Ciro Gomes está, como outros esquerdo-machos brancos, realmente preocupado com o abalo que as chamadas “pautas identitárias” produziram na cena política (e, em especial, no campo das esquerdas, que as abriga). Habituados a falar por nós –mulheres em geral, LGBTs e negros– sem nós, e a apenas nos usar como escadas para chegarem ao poder, os esquerdo-machos estão desesperados diante de nossa decisão de falarmos por nós mesmos e dividirmos, com eles, os espaços de poder. Esse desespero de tintas racistas, homofóbicas e machistas busca disfarçar-se na forma da “preocupação com o que é mais importante para as esquerdas agora” e na forma da acusação de que “as lutas identitárias estão jogando o eleitorado para a direita e a extrema-direita”. Balela!

Na verdade, tirando a suposta preocupação com a desigualdade social, os esquerdo-machos são muito parecidos com os machos da direita e da extrema-direita no que diz respeito à real equidade de gênero e à cidadania plena de LGBTs e negros. Como alguém pode desejar reduzir as desigualdades sociais sem levar em conta as desigualdades raciais e de gênero? Como alguém pode se dizer realmente preocupado com a pobreza sem levar em conta que, dentre os pobres, os pretos sofrem mais em função do racismo que pesa sobre eles, e que, entre os pretos pobres, mulheres e LGBTs estão mais vulneráveis por causa do machismo e da homofobia? Como pensar em desigualdades sem levar em conta essas questões identitárias?

Colocar de lado ou mesmo tentar silenciar os movimentos feministas, de LGBTs, anti-racistas e ambientais neste momento, sob a desculpa esfarrapada de que “a maioria do eleitorado não está preparada para lidar com essas questões agora”, não passa de oportunismo covarde e/ou de cumplicidade tácita com o racismo, o machismo e a homofobia.

Se vamos falar em união do campo progressista, não podemos começar aceitando –ou passando pano para– essa cumplicidade vil. O coronel Ciro Ferreira Gomes fique sabendo que, nesse caso, eu concordo com o filósofo Vladimir Safatle: chega de diálogo, devemos pensar então em ruptura! Não vou estar ao lado de quem age como a direita e a extrema-direita, mas com uma máscara de aliado.

No mais, a aversão de Ciro Gomes à reflexão sobre o cu feita, en passant, por Márcia Tiburi, não passa, por um lado, de uma ignorância sobre o fato de que outros grandes pensadores já se dedicaram a essa reflexão ao longo dos séculos –como, por exemplo, o Marquês de Sade, em “Filosofia na alcova”, de 1795, e Georges Bataille, em “A história do olho”, de 1928– e, por outro lado, de uma superfície opaca que esconde um desejo.

O cu é uma obsessão dos machos heteros e de seu patriarcado. Estes inclusive converteram o sexo anal –mesmo entre uma mulher e um homem– em um tabu. Mais: transformaram a penetração anal num insulto. Isto porém só revela o quanto eles são assombrados por ela.

Por isso, eu não vou, ao fim desse texto, mandar Ciro Gomes tomar no cu por ter insultado covardemente Marcia Tiburi e a agenda dos movimentos sociais de minorias. Não vou porque tomar no cu com consentimento é bom e a gente só manda tomar lá quem a gente gosta!

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Eu perdôo, mas não me esqueço! (Sobre Bachelet, o vôo da Latam e o cuspe) http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/09/05/eu-perdoo-mas-nao-me-esqueco-sobre-bachelet-o-voo-da-latam-e-o-cuspe/ http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/09/05/eu-perdoo-mas-nao-me-esqueco-sobre-bachelet-o-voo-da-latam-e-o-cuspe/#respond Thu, 05 Sep 2019 18:51:58 +0000 http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/?p=247

O fatídico dia da cusparada, na votação do impeachment de Dilma (Alan Marques/ Folhapress)

Sim, o mundo democrático está escandalizado com a sociopatia de Bolsonaro. A última prova desta foi seu elogio à ditadura sanguinária de Pinochet, no Chile, e o insulto à memória de uma das vítimas fatais dessa ditadura, o pai da alta comissária da ONU para os Direitos Humanos e ex-presidente daquele país, Michelle Bachelet.

O mundo democrático fora do Brasil tem o direito de se escandalizar com o fascismo de Bolsonaro, afinal, não o conhecia até ele se tornar presidente da República. Já os brasileiros não têm esse direito. E quem, no país, esteja agora se dizendo “indignado” não passa de um hipócrita e/ou oportunista.

Não preciso relembrar aqui os episódios estarrecedores protagonizados por Bolsonaro antes de sua campanha presidencial (para não citar os que ele protagonizou durante a campanha), ao longo de quase três décadas no Legislativo, para provar que não há qualquer novidade em seu comportamento fascista e que ele está apenas sendo o que sempre foi.

Vou só recordar, aos fingidos e oportunistas brasileiros que agora se dizem “estarrecidos” com sua baixeza, mau-caratismo e desumanidade, dois dos episódios que me envolvem diretamente e, nos quais, passei de vítima a algoz sob uma tempestades de prescrições de como deveria ter me “comportado”, insultos impublicáveis, inclusive por parte de pessoas LGBTs, e de ameaças de morte (os demais episódios estão contados em “O Que Será”, meu novo livro).

Leia mais:

Antes de contar esses dois episódios, gostaria de ressaltar o fato de que, quando cheguei à Câmara Federal, em 2011, Bolsonaro já estava lá havia mais de uma década, fazendo o lobby dos militares, elogiando a ditadura, defendendo a pena de morte e insultando seus colegas.

Eu não inventei Bolsonaro, que fique claríssimo! E antes de ele, contra minha vontade (e recorrendo à homofobia social que a ampla maioria dos brasileiros pratica, mas nega que pratica), usar-me como escada para sua permanência no cenário político, antes disso, ele já havia usado o presidente Fernando Henrique Cardoso (nessa ocasião, eu era conhecido apenas dos meus parentes e amigos na Bahia!). Em declarações à imprensa, Bolsonaro lamentou o então presidente FHC não ter sido morto pelos aparelhos de repressão da ditadura militar.

Dito isso, para desmontar, de cara, o “argumento” desonesto e canalha de quem agora deseja, por vergonha e/ou covardia, colocar o monstro que alimentou na minha conta, vamos aos episódios.

O voo da Latam

Insultado e humilhado com xingamentos homofóbicos perpetrados por Bolsonaro dia sim, dia também na Câmara Federal, diante do silêncio sorridente de meus colegas, jornalistas e operadores das câmeras de televisão; assediado moralmente por ele nos espaços em que nos encontrávamos inevitavelmente; difamado e caluniado na internet por funcionários – e com recursos – de seu gabinete, tudo o que eu queria na vida era me manter longe desse sujeito o máximo que eu pudesse. Recusei inúmeros convites da imprensa para “debates” com ele (não debato nada com alguém do nível desse sujeito!) e cheguei a bater o telefone na cara de um apresentador da Rádio Globo, que, sem que eu soubesse, colocou-o na linha durante uma entrevista comigo.

Eis que, certo dia de abril de 2015, num voo da Latam de retorno para o Rio de Janeiro desde Brasília, estava eu sentado na poltrona do avião, aguardando encerrar o embarque, quando entra Bolsonaro, o último passageiro a embarcar, com a câmera de vídeo do celular ligada, vindo em minha direção.

Ao notar que esse sujeito abjeto, que me torturava psicologicamente todos os dias, viajaria ao meu lado, temendo armadilhas durante o trajeto, retirei-me de mediato do lugar sem dizer uma só palavra e me sentei em outra poltrona. Ainda com a câmera ligada, ele me acusou de “heterofobia”.

Depois, postou o vídeo em suas redes sociais e o resultado foi uma avalanche de insultos homofóbicos e ameaças por parte de heteros “indignados” com minha suposta “heterofobia” e observações de colegas sobre como eu deveria ter sido magnânimo e não ter me retirado do lugar onde estaria a pessoa que me torturava psicologicamente todos os dias e que poderia estar preparando algo pior contra mim durante a viagem. Pimenta no olhos dos outros é colírio; nos de uma bicha então…

A Latam até hoje não me explicou como Bolsonaro obteve o número da minha poltrona para montar a armadilha. Essa negligência da empresa aérea põem em risco a privacidade de seus clientes.

A cusparada

O segundo episódio é mais conhecido. Durante a sessão da Câmara Federal que votou o impeachment de Dilma Rousseff, Bolsonaro dedicou seu voto ao torturador da presidenta (o mais terrível dos torturadores da Ditadura Militar no Brasil), e, na sequência, perpetrou mais um insulto homofóbico contra mim. Cuspi em sua cara como resposta!

Mais insultos, uma onda de ameaças de morte e jornalistas na imprensa comercial e inúmeras bichas e sapatões de classe média (e com muita homofobia internalizada) tratando do quanto eu havia sido “mal-educado” e do quanto aquela não era uma “postura de deputado”.

Sobre o elogio à tortura e o insulto homofóbico; sobre meus anos sob tortura psicológica perpetrada por Bolsonaro, nenhuma palavra dessas pessoas naquele momento. Aliás, quem foi parar no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados fui eu, que cuspi na cara de um fascista que me difamava, e não ele, que cometeu o crime de apologia à tortura sob os olhos de quase toda a nação.

Sendo assim, brasileiros (e, em especial os brasileiros de classe média e que trabalham na imprensa comercial) que votaram ou não em Bolsonaro, parem de se fingir de chocados com a sociopatia dele! Parem! Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira. Nas ocasiões em que vocês puderam deter esse canalha perverso, vocês optaram por converter suas vítimas em algozes, homofóbicos sociais e machistas que são.

Eu perdoo (as bichas)

E eu resolvi recordar esse episódios porque, infelizmente, alguém me marcou na publicação de um site voltado para gays que reproduz a entrevista que concedi à GQ; e, lá, nos comentários, um número considerável de bichas ordinárias, burras, invejosas e com homofobia internalizada que votaram em Bolsonaro e, agora, são chamadas de “lixo” por ele, alternava o insulto contra mim à tentativa de justificar o voto no monstro.

Eu poderia dizer que não tenho qualquer pena do que vai ocorrer com esses gays, mas eu não estaria sendo honesto comigo.

Tenho pena sim. Sei que a tentativa de colocar Bolsonaro na minha conta é, além de desonestidade intelectual, um esforço para deter a culpa que lhes corrói e aplacar o medo do que já está pesando sobre eles. Sendo assim, sim, eu tenho mais que pena: de antemão digo que as perdoo. Como perdoo todos os que me insultaram e ameaçaram quando aconteceram os dois episódios. Contudo, perdoar não quer dizer esquecer!

A escritora estadunidense Toni Morrison, falecida no início deste ano, diz, em um texto curto mas profundo sobre o fascismo, escrito em 1995, que este não “limparia” tão facilmente seu trabalho sujo se pessoas que são suas vítimas não se dispusessem à tarefa de fazer essa “limpeza”.

Gays, lésbicas e trans que, mesmo sabendo de tudo, atacaram-me injustamente quando eu estava apenas lhes defendendo e depois votaram em Bolsonaro, esses LGBTs permitiram que ele lhes usasse para dizer que não é o homofóbico que é; permitiram que ele “limpasse” a sua sujeira. Encarar essa verdade e tentar mudar doravante será melhor para as suas almas do que seguir mentindo para si mesmos. O mesmo eu recomendo aos héteros arrependidos de seu voto.

Ah, sim, aceito as desculpas mesmo que elas não venham. Mas não vou me esquecer!

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Os fiéis da besta http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/09/03/os-fieis-da-besta/ http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/09/03/os-fieis-da-besta/#respond Tue, 03 Sep 2019 22:06:13 +0000 http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/?p=240

O presidente Jair Bolsonaro (Antonio Cruz – 2.set.2019/Agência Brasil)

A pesquisa nacional do Datafolha que aponta o aumento considerável da rejeição a Bolsonaro nos últimos dois meses mostra também que, entre os evangélicos neopentecostais (não estão neste segmento os frequentadores das igrejas luterana, anglicana, presbiteriana nem a maioria das batistas), sua popularidade resiste. De acordo com a pesquisa, 46% dos evangélicos neopentecostais ainda avaliam o governo Bolsonaro como “ótimo” ou “bom”.

Este não é um detalhe menor dessa pesquisa Datafolha. E ele tem a ver com um aspecto da disseminação de fake news que deu a vitória a Bolsonaro e que vem norteando seu governo.

Um aspecto que – até este momento dos meus estudos sobre o tema – distingue o modo como a propagação de notícias mentirosas acerca de fatos e pessoas da política se dá no Brasil: o suporte dos pastores das igrejas neopentecostais em relações presenciais (fora das redes sociais digitais).

Se a intimidade e a confiança – resultados do parentesco e/ou da história comum que reúne as pessoas nas redes sociais digitais (a mesma turma de escola ou faculdade ou a mesma escola ou universidade, a mesma empresa, a mesma creche dos filhos, etc.) – foram e são fundamentais para a disseminação de mentiras no Facebook e principalmente no WhatsApp, no caso dos evangélicos neopentecostais, o endosso da mentira por parte dos pastores em cultos é algo decisivo para que acreditem nela e a compartilhem com convicção.

É aí também onde se dá a articulação das fake news com o discurso de ódio.

Essa engrenagem funciona mais ou menos assim: os pastores neopentecostais sabem que o combate institucional à homofobia e ao racismo religioso reduz as suas chances de conquistar fiéis e dinheiro entre aqueles que têm preconceitos contra os homossexuais e contra as religiões de matriz africana (o candomblé e a umbanda, por exemplo). Então, aparece, do nada, por meio de um site ou perfil anônimo na internet, uma notícia mentirosa (que quase sempre recorre a um elemento da verdade) sobre o deputado que trabalha no combate à homofobia e ao racismo religioso.

Na sequência, a notícia é disparada em massa nos grupos de Facebook e WhatsApp por números de telefones desconhecidos e perfis apócrifos. Por fim, no culto presencial, os pastores se referem à mentira como notícia que receberam via redes sociais, fortalecendo-a junto aos fiéis.

Foi assim que a mentira de que eu apresentei um projeto para legalizar o casamento entre pessoas e animais virou “verdade” entre a maioria dos neopentecostais, despertando seu ódio contra mim. E, por meio dessa engrenagem, a “mamadeira de piroca” produziu uma histeria coletiva que acabou por dar vitória nas eleições a fascistas (incluindo aí a organização criminosa chamada MBL, que, agora, deseja se safar de seus crimes).

“Escolhido de Deus”

O recente vídeo em que o bispo Edir Macedo – da Igreja Universal do Reino de Deus (a maior e mais poderosa das igrejas neopentecostais brasileiras) – trata Bolsonaro como “escolhido de Deus” é paradigmático não só do ataque à laicidade do Estado prevista na Constituição Federal, mas sobretudo dessa engrenagem que mantém a popularidade de Bolsonaro alta entre esses evangélicos.

Os semialfabetizados, os analfabetos funcionais, os não-leitores (de livros) e os sem acesso às artes vivas são maioria entre os evangélicos neopentecostais, que constituem aquilo que os economistas chamam de “classe C”, e que foi o segmento da população mais beneficiado pelas políticas sociais da Era Lula.

A parte deste contingente que chegou ao ensino superior por meio do Fies e do Prouni – com exceções, claro – comportou-se mais como cliente do que como aluna das instituições privadas de ensino, transformada que estava em consumidora pelas políticas sociais do PT. O resultado é que ela teve uma educação superior muito precária: comprou um diploma a prestações financiadas pelo Estado, que não conseguiu, por diversos motivos – entre eles, a corrupção dos empresários da educação superior e de servidores públicos – garantir a qualidade do ensino.

E esta educação precária não garantiu a desconstrução de preconceitos e impediu a ampliação de imaginários que protege as pessoas da propaganda, da manipulação e da mentira. Não interpreta o texto bíblico, não identifica os falsos profetas e tornam-se fiéis da besta que tanto temem em suas fantasias sobre inferno e paraíso.

A tendência, então, é que a rejeição a Bolsonaro siga crescendo de uma maneira geral, mas o culto em torno da sua imagem se radicalize entre os rebanhos das igrejas evangélicas neopentecostais que fecharam um pacto em torno de sua candidatura e que lucram bastante com a homofobia e com a demonização dos terreiros de candomblé e centros de umbanda, fruto do racismo religioso histórico.

Mas, ao final, a besta cairá!

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Um canto de amor http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/09/02/um-canto-de-amor/ http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/09/02/um-canto-de-amor/#respond Mon, 02 Sep 2019 17:56:55 +0000 http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/?p=231

Exposição em Paris faz retrospectiva do cinema “em outras cores”. (Blog do Jean Wyllys/UOL)

 

No momento em que o presidente da França, Emmanuel Macron, responde com inteligência, cultura política e elegância à estupidez, incompetência e misoginia do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, expondo, ao mundo, o abismo que os separa; neste momento, a prefeitura de Paris abriga uma exposição que apenas reforça o quanto a cultura política francesa atual pretende servir de trincheira contra o fascismo que retorna: trata-se de “Champs D’amours – 100 ans de cinéma arc-en-ciel” (“Campos dos Amores – 100 anos de cinema arco-íris”, em tradução livre).

Com cartazes, fotografias, retratos, instalações, trechos de filmes e objetos, como cadernos de anotações, esboços de roteiros e storyboard, a exposição busca contar a história dos cem anos do “cinema em outras cores”, tomando, como marco inicial, o filme alemão “De autre que les autres” (“Diferente dos outros”, em tradução livre), de Richard Oswald, de 1919, e abarcando produções de diferentes países, entre os quais, o Brasil, onde, agora, em decorrência de uma portaria do presidente fascista Jair Bolsonaro, o estado está proibido de financiar filmes com temas relacionados a LGBTs.

Estão na exposição, por exemplo, “Bixa Travesty”, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, estrelado por Lyn Da Quebrada; “Madame Satã”, de Karim Ainouz, cujo novo filme, “A Vida Invisível”, acaba de ser selecionado pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa pela indicação ao o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro; e “O Beijo da Mulher Aranha”, filme de Hector Babanco, estrelado por Sônia Braga e baseado no romance homônimo do escritor argentino gay Manuel Puig.

“Champs D’Amours” busca contemplar os filmes que, ao longo desses cem anos, representaram, de diferentes formas, as pessoas da comunidade sexo-diversa e suas relações sociais e sexuais, recorrendo a estereótipos de LGBTs e seus modos de vida ora para reafirmá-los de maneira debochada ora para desconstruí-los deliberadamente, apresentando novas perspectivas sobre esta comunidade. Mas não só isso, o objetivo da exposição é, principalmente, homenagear lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais que tornaram possível esse “cinema em outras cores”, principalmente as pessoas que se assumiram como tais em períodos em que esse “coming out” (este é também o título do filme de Denis Parrot) significava um estigma.

O título da exposição – “Champs D’Amours” – é, ao mesmo tempo, uma referência ao curta “Chant D’Amour” (“Canto de amor”, em tradução livre), feito por Jean Genet em 1950, e a “Champs-Élyseés” (“Campos Elísios”), a mais glamourosa região de Paris.

Refletindo todas as conquistas políticas, filosofias e debates internos feitos pelo movimento LGBT, que muito recentemente incluiu, na sigla, a letra Q, de “queer” (“desviado”, em tradução livre), o cartaz de “Champs D’Amours” traz um close de Divine, a drag-queen fechativa que estrela “Pink Flamingos”, de John Waters, um clássico da contra-cultura gay.

Esta exposição não é apenas uma efeméride. Trata-se de um ato político de resistência neste momento em que a extrema-direita mais homofóbica retorna com relativa força em todo mundo.

O filme tomado como marco inaugural desses cem anos – “Diferente dos outros” – denunciava, em 1919, o Parágrafo 175 do Código Penal alemão que criminalizava a relação sexual entre homens. Este dispositivo legal durou de 1871 a 1994. Sim, até meados da década de 1990, a Alemanha criminalizava a homossexualidade. E foi este Parágrafo 175 que permitiu que os nazistas mandassem mais de 50 mil homossexuais aos campos de concentração.

Essa história medonha pode se repetir a qualquer momento se não tivermos memória, se as novas gerações não souberem do que se passou e se não resistirmos de todas as formas ao mal que a produziu (um mal que está de volta!). E não há memória nem resistência sem o cinema. E não há cinema sem os criadores LGBTs. Por isso, “Champs D’Amours” é tão importante e significativa.

E aproveito para comunicar aos LGBTs que fazem a sétima arte no nosso país que a nova temporada de Cinema em Outras Cores, a série que apresento no Canal Brasil, chegará em breve. Um novo canto de amor.

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O silêncio eloquente de Roberto Carlos http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/08/24/o-silencio-eloquente-de-roberto-carlos/ http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/08/24/o-silencio-eloquente-de-roberto-carlos/#respond Sat, 24 Aug 2019 07:00:05 +0000 http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/?p=226

Roberto Carlos vem, há décadas, posicionando-se de maneira crítica sobre a Amazônia (Adriana Spaca/Brazil Photo Press/Folhapress)

O fogo ameaça a Amazônia, floresta fundamental à regulação do clima na Terra.

O governo Bolsonaro é denunciado internacionalmente por conta de seus tenebrosos planos políticos em relação à floresta (Open Democracy e Democracia Abierta, em parceira com The Intercept, expuseram hoje quais são esses planos). Países da Europa ocidental que custeiam o Fundo Amazônico estão indignados com a burrice e a desonestidade intelectual de Bolsonaro e de seus ministros do Meio Ambiente e das Relações Exteriores.

No Brasil, alguns artistas da televisão e da música protestam contra o ataque à Amazônia. Mas ainda há muitos artistas populares calados em relação ao destino da Amazônia no governo Bolsonaro. No caso de um deles, porém, o silêncio diz muito: Roberto Carlos.

O cantor e compositor capixaba costuma – como quase todo artista popular que se torna um ícone, ídolo de pessoas de diferentes gerações e classes sociais – posicionar-se pouco ou quase nada sobre questões políticas. Em suas entrevistas, quase sempre, reitera platitudes sobre causas unânimes, como, por exemplo, a “paz mundial”, o “combate à fome”, o “cuidado com as crianças” e a “proteção dos velhos”.

Em relação às causas polêmicas – casamento igualitário, legalização do aborto, legalização e regulamentação do comércio e consumo de drogas, combate ao racismo e à homofobia, por exemplo – nada diz porque sabe que o que disser resultará em críticas e em afastamento por parte de quem não comunga de seu posicionamento.

Porém, apesar de aprisionado na engrenagem de manutenção dessa popularidade, Roberto Carlos vem, há décadas, posicionando-se de maneira crítica e contundente não só sobre a Amazônia, mas sobre esse capitalismo predatório que produziu o aquecimento global e as mudanças climáticas e sobre práticas criminosas que ameaçam de extinção outras espécies vivas. Sim, muito antes de estes temas se tornarem uma agenda global, Roberto Carlos já os cantava.

Nuvens escuras

Muito antes da fumaça das queimadas transformarem São Paulo em noite no meio da tarde, Roberto Carlos já dizia, em “O Progresso”, no ano de 1976, que não queria ver “tantas nuvens escuras nos ares” nem “todo verde da terra morrendo”, e, de quebra, criticava a indústria armamentista e o culto às armas.

Dois anos depois, o cantor voltou ao tema em “O Ano Passado”, dessa vez citando nominalmente a floresta amazônica: “Quem padeceu de insônia com a sorte da Amazônia na lei do machado?”. Nessa letra futurista, em que imagina um museu que guardará as relíquias da natureza destruída pelos seres humanos, Roberto Carlos faz uma crítica aberta ao modo de produção capitalista que está exaurindo os recursos naturais para privilégios de poucos e ao mercado financeiro e sua insensibilidade em relação às desigualdades sociais:

“Os gritos na Bolsa falaram de outros valores! Diante da economia, quem pensa em ecologia? Se o dólar é verde, é mais forte que o verde que havia. O que será o futuro que hoje se faz?”.

Em 1981, fez um emocionante protesto contra a caça predatória de baleias numa música que os elitistas gostam de acusar de “brega”, mas cuja letra é um primor (além de ter uma linda melodia):

“Não é possivel que, no fundo do seu peito, seu coração não tenha lágrimas guardadas pra derramar sobre o vermelho derramado no azul das águas que você deixou manchadas!

Seus netos vão lhe perguntar, em poucos anos, pelas baleias que cruzavam os oceanos, que eles viram em velhos livros ou nos filmes dos arquivos dos programas vespertinos de televisão”.

Amazônia, o álbum

Por fim, em 1989, quando o país buscava se redemocratizar por meio de uma eleição presidencial direta (a primeira após mais de duas décadas de uma terrível ditadura militar, em relação à qual Roberto Carlos nunca se posicionou contra abertamente), o cantor praticamente dedicou seu disco à causa da Amazônia. Na capa, aparece usando uma pena como brinco, numa referência aos povos indígenas ameaçados.

Na letra de “Amazônia”, carro-chefe desse disco, Roberto Carlos se refere a ameaças e práticas que já existiam, mas que agora se agravam drasticamente com um governo – o governo Bolsonaro – que nega as mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global e é complacente com o (para não dizer cúmplice do) garimpo ilegal em terras indígenas e com o agronegócio que deseja ampliar seus pastos:

“Numa ambição desmedida, absurdos contra os destinos de tantas fontes de vida. Quanta falta de juízo! Quem desmata, mata. Como dormir e sonhar quando a fumaça no ar arde nos olhos de quem pode ver?”.

Sendo assim, de todos os artistas populares que continuam covardemente calados em relação à sorte da Amazônia no governo Bolsonaro, Roberto Carlos é o que menos merece ser cobrado. Ele já disse muito e antes!

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Lula, 500 dias: uma prisão coletiva http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/08/20/lula-500-dias-uma-prisao-coletiva/ http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/08/20/lula-500-dias-uma-prisao-coletiva/#respond Tue, 20 Aug 2019 21:56:50 +0000 http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/?p=216

7.abr.2018: Lula é carregado após dizer que se entregaria à PF.(Andre Penner/AP Photo)

Os 500 dias da prisão de Lula dizem muito sobre o Brasil, e não só sobre o Brasil dos últimos três anos, quando o fascismo começou a retornar, minando a democracia cujas defesas foram debilitadas por um golpe (o impeachment de Dilma), como um vírus adoece o corpo quando seu sistema imunológico cai.

Os 500 dias da prisão de Lula são um sintoma de um país (na verdade, da elite deste país) que se recusa a se democratizar de verdade, nega oportunidades a quem tem origem popular e pune quem ousa desafiar esse status quo. Nesse sentido, os 500 dias prisão injusta de Lula – e a série de reportagens de The Intercept (a Vaza Jato) está aí para não deixar dúvida sobre esta injustiça – são mais que um drama concreto de uma família. Há 500 dias a maioria dos brasileiros está presa junto com o ex-presidente, mesmo que muitos dos brasileiros não tenham consciência disso e até festejem essa prisão injusta (afinal, alguns escravos passam a naturalizar e até amar as correntes que lhe prendem).

A prisão do Lula foi urdida e executada por autoridades brasileiras nada patrióticas, embora recorram à patriotada, para garantir estratégias geopolíticas dos Estados Unidos. Para o sucesso dessa empreitada, o ódio a Lula teve que ser tecido, inclusive e principalmente com mentiras.

O sociólogo Jessé de Souza defende esta tese em seu livro “A Elite do Atraso – Da Escravidão à Lava Jato”: o preenchimento do significante da corrupção pela imprensa comercial (alto-falante da classe social dominante, composta pelos ricos) teria levado os altos funcionários públicos e a classe média beneficiados durante e pelos governos Lula a odiarem injustamente o ex-presidente. Para Jessé de Souza, a elite sempre preencheu o significante vazio da corrupção de modo a manipular a classe média e a desrespeitar a soberania popular (o resultado de eleições livres e limpas).

Aos motivos apresentados por essa tese de Souza, eu acrescentaria alguns outros:

1) O ressentimento dos altos funcionários públicos e da classe média em relação a Lula – ressentimento que independe do modo como a elite e seu alto-falante (a imprensa comercial) preencheram o significante vazio da corrupção de modo a criminalizar Lula e o PT (e, por extensão, todas as esquerdas, embora muita gente, no PT e no PSOL, por exemplo, tenha embarcado na narrativa construída pela imprensa comercial).

Até Lula se tornar presidente do Brasil, os altos funcionários públicos (sobretudo juízes, desembargadores e procuradores da República) transmitiam seus cargos aos seus filhos quase como uma herança, seja por meio das vantagens materiais (comida decente e todos os dias, educação de qualidade em tempo integral, atividades extracurriculares, lazer e acesso ao aprendizado de outras línguas) que lhes dão as melhores condições na prestação dos concorridos concursos públicos, seja por meio de fraude nos mesmos concursos para lhes garantir as vagas (participar dessas fraudes exige dinheiro!).

Até Lula ser presidente, a classe média branca tinha o ensino superior público (de qualidade muito maior em relação ao privado), sobretudo os cursos de Engenharia, Direito e Medicina, como um privilégio seu, e naturalizava a quase ausência de pessoas de origem pobre nas universidades públicas (aliás, os cursos noturnos nestas só vieram com Lula; a ausência destes era a prova mesma de que as universidades públicas eram feitas para quem não precisava trabalhar enquanto estudava; eu e outros poucos somos raras exceções de pessoas que trabalhavam enquanto cursavam a universidade).

Logo, é grande o ressentimento dessa gente em relação a Lula, pelo fato de este ter, com o conjunto de suas políticas sociais, alterado minimamente a transmissão desses privilégios mantidos com dinheiro público.

O discurso “contra corrupção” de altos funcionários públicos e da classe média branca não passa de uma máscara para seu ressentimento. Tanto é que agora se encontram calados ante a corrupção e a incompetência do governo fascista de Bolsonaro que ajudaram a eleger. E se encontram calados porque sabem do que o fascismo é capaz.

Sem falar que a classe média branca e os altos funcionários públicos recorrem à corrupção sempre que precisam, como as já referidas fraudes em concursos públicos; os abortos clandestinos em clínicas de segurança; os atestados médicos falsos e subornos de baixos funcionários públicos. Fora a venda de sentenças por parte de juízes ou os acordos espúrios que fazem com empresas em prejuízo de comunidades.

2) O segundo motivo que acrescento à tese de Jessé de Souza é a inveja, esta poderosa emoção política. Pessoas como Lula, a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018 por milicianos ligados à família de Bolsonaro, e como eu, que superamos todas as barreiras impostas à nossa mobilidade social e ocupação de espaços de poder, despertamos a inveja de quem as impôs.

Se alguém poderia empunhar a bandeira da meritocracia esse alguém seríamos Lula e eu (Marielle já não pode porque foi assassinada covardemente), que chegamos onde chegamos apesar das barreiras impostas por classe social de origem, pela cor da pele (Marielle era preta; Lula e eu somos mestiços nordestinos), orientação sexual e gênero (ela era mulher; ela e eu pertencemos à comunidade LGBT).

Entretanto, quem gosta de falar em “meritocracia” são os privilegiados de sempre, que têm as vantagens vindas da classe social (o capital social, a rede de relações e apadrinhamentos), da cor da pele, da orientação sexual e do gênero. Quem gosta de falar em “meritocracia” são homens brancos e privilegiados desde sempre como Aécio Neves e João Dória, que, sem as vantagens que a classe social, o gênero e a cor da pele lhes deram, seriam dos losers. Pessoas como eles têm inveja dos que os superam sem ter tido nenhum dessas vantagens e ainda com barreiras pelo caminho. Não por acaso, os dois odeiam Lula.

3) O terceiro e último motivo que acrescento à tese de Jessé de Souza está maravilhosamente descrito pela historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz em seu novo livro, “Sobre o Autoritarismo Brasileiro” (Companhia das Letras, 2019). Recomendo muito! Trata-se de uma arqueologia desse mal que se opõem a democratas de verdade.

Lula, Dilma, Marielle e eu somos democratas de verdade; acreditamos verdadeiramente na democracia. Lula está preso injustamente. Dilma foi deposta num impeachment fraudulento em 2016. Marielle foi assassinada covardemente em 2018. E eu fui obrigado ao exílio no final do mesmo ano.

Isso não quer dizer que os antidemocratas, os autoritários e os incompetentes privilegiados venceram. Ainda não. Muitos como nós estão a caminho e estão se preparando. E chegará a hora do acerto de contas; a hora de a democracia se impor à elite do atraso e à classe média manipulada.

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O closet de Bolsonaro: uma economia de atração e repulsa http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/08/19/o-closet-de-bolsonaro-uma-economia-de-atracao-e-repulsa/ http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/08/19/o-closet-de-bolsonaro-uma-economia-de-atracao-e-repulsa/#respond Mon, 19 Aug 2019 14:48:54 +0000 http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/?p=206 Temos um desafio no momento. Resta-nos, todavia, descobrir se se trata apenas da conhecida expressão espontânea de sua burrice e fantasias sobre masculinidade ou se estas características de Bolsonaro estão sendo instrumentalizadas por estratégias geopolíticas que desejam transformar o Brasil em colônia dos Estados Unidos.

Enquanto não descobrimos, permanecemos na encruzilhada para a qual é urgente pensar uma saída: não podemos nem devemos ignorar a violência verbal do presidente da República, mas, ao dedicarmo-nos à necessária tarefa de desconstruir este mal, permanecemos onde Bolsonaro ou quem está instrumentalizando sua maldade quer que permaneçamos.

Bom, mas, como disse antes, é impossível ignorar seus discursos e atos. Sendo assim, vou me ater, agora, aos que violentam os direitos civis e a dignidade humana da comunidade dispersa da qual faço parte, a comunidade sexo-diversa, a comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros, transexuais e pessoas “desviadas” em termos de orientação sexual e identidade de gênero (as pessoas queer).

Garimpo na Ancine

Bolsonaro disse que deliberadamente garimpou, entre os projetos de filmes que aguardavam uma resposta da Agencia Nacional do Cinema (Ancine) em relação ao pedido de captação de recursos por meio da Lei do Audiovisual, para vetá-los, aqueles cujo conteúdo se referem à comunidade LGBTQ. Atentem para este detalhe: o presidente da República foi garimpar deliberadamente os projetos. Ele não apenas disse que os vetaria como também os difamou, um a um, recorrendo à homofobia social que garantiu o sucesso de suas fake news entre a maioria das pessoas durante a campanha eleitoral de 2018, e, desde que eclodiram as denúncias (com provas incontestes) da ligação de sua família com o crime organizado, assegura-lhe uma milícia odiosa nas redes sociais.

Ainda há pouco li a notícia de que Bolsonaro, “em busca de privacidade”, teria se “refugiado” no closet (armário) de seu quarto no Palácio Alvorada, donde, doravante, segundo a notícia, fará as transmissões de seus discursos.

Ora, instrumentalizados ou meramente espontâneos, esses dois atos são sintomas de uma ansiedade sexual; de uma masculinidade tão tóxica quanto frágil, assombrada pelo fantasma da homossexualidade, ou, mais especificamente da penetração anal; como, de resto, é a masculinidade dos homens heterossexuais que defendem o presidente da República, insultam-me, ameaçam-me e me difamam com mentiras nas redes sociais.

Ninguém vai garimpar deliberadamente, em um arquivo ou lista, projetos de filmes com temas ligados à sexualidade de LGBTS se não sentir, consciente ou inconscientemente (no sentido psicanalítico de inconsciente) uma atração por esta sexualidade, ainda que esta atração seja expressa consciente e publicamente na forma da repulsa.

No armário

Qualquer pessoa minimamente informada e com amigos na comunidade LGBTQ sabe que o closet (o armário) é a metáfora do lugar (mas, em alguns casos, o lugar real) subalterno onde a sociedade da dominação masculina heteronormativa – a sociedade que trata a heterossexualidade e a cisgeneridade como destinos naturais e as impõe por meio de diferentes coerções, começando pela coerção linguística, ou seja, pelo o insulto – o lugar onde esta sociedade quer nos prender.

É sintomático (no mínimo, curioso), portanto, que Bolsonaro escolha o armário para buscar “privacidade” e fazer as transmissões de seus discursos homofóbicos. O presidente da República tem, como quase todos os homens héteros com ódio ou aversão à homossexualidade, uma atração pelo que imaginam que fazemos no armário. Eles querem interditar – e por muito tempo interditaram por meio de diversas expressões de violência – nossa presença nos espaços públicos e de poder, empurrando-nos para o armário desde a primeira expressão de nossa orientação sexual e/ou identidade de gênero; mas, ao mesmo tempo, desejam saber o que se passa dentro do closet. Não por acaso, as saunas e os espaços de cruising (“pegação”) gays estão cheios de homens heteros – muitos deles casados com mulheres – que, após o gozo, convertem-se em agressores ou assassinos de gays e travestis.

Trata-se de uma economia sexual de atração e repulsa em relação à homossexualidade e transgeridade. Economia engendrada por uma masculinidade e um patriarcado nefastos que negam, aos homens héteros de uma maneira em geral, o direito a uma sexualidade mais livre e uma relação igualitária com as mulheres (a maioria destas transformada, por esses mesmos patriarcado e masculinidade, em meios de reprodução da dominação masculina, como bem explicitaram o sociólogo francês Pierre Bourdieu e a historiadora e escritora americana Rebecca Solnit).

Macho em xeque

Homens héteros homofóbicos deploráveis e abjetos como Bolsonaro são os que mais se traem em relação a essa economia. O insistente discurso público da repulsa em relação principalmente ao sexo anal entre homens é a prova mesma da atração que sentem por essa prática sexual.

Estão permanentemente assombrados pela liberdade sexual dos “desertores do patriarcado” – nós, os gays – e das mulheres lésbicas que excluem, de suas relações, o pau do macho. Nós colocamos em xeque suas convicções sobre a heterossexualidade ser um destino natural e mostramos que o sexo pode ser só recreativo e não servir para a opressão das mulheres nem para a transmissão da propriedade privada.

Instrumentalizado politicamente por terceiros ou apenas espontâneo, o ódio de Bolsonaro aos homossexuais é, ao contrário do que pensam os machos que se vêem, nele, refletidos (com seu culto às armas e a carros sem controle), uma prova de sua fragilidade diante de nós, LGBTS. Mais que isso: trata-se da vontade inconsciente de experimentar nossas práticas sexuais, de saber porquê, apesar de toda violência deles contra nós, seguimos satisfeitos sexualmente e lutando pelos mesmos direitos que eles.

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A luz de Tieta (para não dizerem que só escrevo sobre política) http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/08/10/a-luz-de-tieta-para-nao-dizerem-que-so-escrevo-sobre-politica/ http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/08/10/a-luz-de-tieta-para-nao-dizerem-que-so-escrevo-sobre-politica/#respond Sat, 10 Aug 2019 23:49:03 +0000 http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/?p=199 Betty Faria interpreta Tieta; Globo deveria fazer um ramake da telenovela - mas incluindo a crítica social trazida na obra de Amado

Betty Faria interpreta Tieta; Globo deveria fazer um ramake da telenovela – mas incluindo a crítica social trazida na obra de Amado

Hoje, 10 de agosto, completam-se 107 anos do nascimento do baiano Jorge Amado, o mais popular e mundialmente conhecido escritor brasileiro (com exceção de Paulo Coelho). Em 1977, quatro dias após seu aniversário, Amado lançou “Tieta do Agreste”, seu 24º livro. A princípio, como sugere o restante do título desta obra, trata-se de um “melodramático folhetim em cinco sensacionais episódios e um comovente epílogo”.

A pastora de cabras Maria Antonieta – chamada de “Tieta” por familiares e vizinhos – é delata ao pai, Zé Esteves, pela irmã, a carola Perpétua, que não se contém de inveja ao ver a irmã no exercício de sua sexualidade. Num tempo em que mulher só poderia “perder o cabaço” depois de casada na igreja e no civil (esse tempo acabou de verdade?), sob pena de desonrar toda a família em caso contrário, Tieta é escorraçada e humilhada pelo pai e posta para fora da pequena Santana do Agreste numa marinete. Anos depois, Tieta, a “filha pródiga”, volta rica à cidade natal e tem a chance de fazer um acerto de contas com a família que a expulsou.

Este melodrama, no entanto, é só a fachada de um sólido edifício literário construído por Amado e contém vigoroso e atualíssimo debate político: a ameaça que representam ao meio ambiente e a todas as espécies vivas a ganância desenfreada das empresas e a corrupção política que elas promovem. Jorge Amado antecipava em décadas o debate sobre as mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global produzido pela poluição das grandes indústrias e pelo desmatamento desenfreado. Na trama, sob a desculpa de que Santana do Agreste precisava do “progresso”, uma vez que sequer a luz elétrica havia chegado à cidade (as casas da burguesia local eram iluminadas com a luz de um motor), mas, na verdade, visando o enriquecimento privado, as autoridades políticas locais concedem licença para que uma fábrica de dióxido de titânio (a Brastânio) – altamente poluente e tóxica, que mataria ou adoeceria as pessoas e os bichos no futuro – fizesse sua instalação na praia de Mangue Seco, um paraíso até então preservado.

A telenovela “Tieta”, adaptação do romance feita por Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn em 1989 para a Rede Globo, passa ao largo dessa questão, concentrando-se no que há de folhetinesco no livro de Amado, embora tenha sido maravilhosa e marcado um geração (aliás, a Globo deveria pensar seriamente em fazer um ramake desta telenovela, dessa vez não se limitando ao folhetim).

Quem mais é fiel ao que Jorge Amado mantém por trás da fachada de seu edifício literário é Cacá Diegues em sua adaptação do romance para o cinema em 1996. Claro, a sétima arte sempre pode ir e vai mais além do que a televisão. Para compor a trilha sonora deste filme, Diegues convidou o compositor – leitor entusiasmado da obra de Jorge Amado e também baiano – Caetano Veloso, que, há três dias, 7 de agosto, fez aniversário de 77 anos.

Inteligente e talentoso como sempre, Caetano compôs uma trilha que ganhou vida para além do filme. Nela, destaca-se a música “A luz de Tieta”, a mais perfeita tradução, até momento, do que está por trás do folhetim de Jorge Amado. Por ser um samba-reggae e ter surgido no auge da música comercial e popular produzida na Bahia (a chamada “axé music), esta música de Caetano Veloso foi duramente criticada à época por intelectuais e jornalistas elitistas que escreviam para a Folha de S.Paulo, a exemplo de Marilene Felinto e Pedro Alexandre Santos, que a acusaram de “pobreza literária” por causa do refrão “Êta! Êta! Êta! Êta! É lua; é o sol; é a luz de Tieta! Êta! Êta!”. A esses intelectuais faltavam, à época, leitura do romance de Jorge Amado e boa vontade, além de conhecimento das particularidades linguísticas da Bahia (“Êta!” é uma expressão de surpresa diante de algum bom e inusitado).

Com a – e por causa da – volta de Tieta à Santana do Agreste, a luz elétrica chega à cidade. Tieta é a metáfora do que pode iluminar as pessoas. É quem poderia, de verdade, guiar o povo, como a Liberdade no quadro de Eugène Delacroix, ao contrário dos “homens de bem” da política e dos fundamentalistas cristãos da cidade, movidos pela ganância e pela hipocrisia, a começar por sua irmã Perpétua.

Observando o que se passa agora no Brasil, em que fanáticos religiosos ignorantes como Damares, Weintraub e Ernesto Araújo ocupam ministérios; e em que um hipócrita espertalhão com tendências ditatoriais e igualmente inculto como Bolsonaro ameaça a floresta amazônica e os povos indígenas com sua política ambiental predatória, sob aplausos de pessoas manipuladas diariamente pela mentira e literalmente envenenadas, eu não posso deixar de pensar na atualidade de “Tieta do Agreste”, o romance de Jorge Amado que fará aniversário nos próximos dias. Ao observar o comportamento do ministro da Justiça, Sergio Moro, à frente da Polícia Federal, cada dia mais uma polícia política, capaz de forjar “crimes” e provas (como essa fraude das supostas conversas de membros da organização criminosa PCC citando o Partido dos Trabalhadores como seu facilitador) para proteger um verdadeiro criminoso que atentou contra a soberania popular e conspirou contra a democracia, penso na precisão dos versos de Caetano Veloso ao se referir a Tieta, a puta que estava eticamente acima dos que lhe desprezavam moralmente, e à gente de Santana do Agreste (microcosmo do Brasil):

“Nessa terra, a dor é grande e ambição pequena: Carnaval e futebol. Quem não finge, quem não mente, quem mais goza e pena é quem serve de farol”.

Tieta é como Lula.

Depois de tudo que faz por Santana do Agreste, Tieta tem que, mais uma vez, deixar a cidade sob as acusações dos que não têm moral para acusá-la de nada, isso porque as autoridades locais descobrem que ela era puta em São Paulo. Com os eleitores enganados como plateia, estas autoridades inauguram a luz elétrica com uma praça à qual dão o nome de um político local, ignorando a real responsável pela chegada da luz e pela a proteção do meio-ambiente.

Mas, na calada da noite, a placa de metal com a homenagem ao tal político foi substituída por uma de madeira onde se lia “Praça da luz de Tieta”, feita artesanalmente por mãos anônimas, mãos do povo.

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O que será da democracia http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/08/02/o-que-sera-da-democracia/ http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/2019/08/02/o-que-sera-da-democracia/#respond Fri, 02 Aug 2019 19:39:21 +0000 http://jeanwyllys.blogosfera.uol.com.br/?p=196

Imagem do vídeo Privacidade Hackeada Foto: Divulgação/Sundance Festival

“É um problema intenso viver com essa desinformação e essa propaganda negativa todo santo dia, e sentir o resultado disso e saber que funciona. Há um impacto na vida real, acreditem ou não”, diz Carole Cadwalladr, jornalista de The Guardian vítima de fake news e insultos perpetrados por partidários do Brexit (campanha para que o Reino Unido deixe a União Europeia) e por perfis falsos operados por robôs nas redes sociais daquele país pelo fato de ter investigado a empresa Cambridge Analytica e sua ligação com a campanha do Brexit e a que, nos EUA, deu a eleição a Donald Trump em 2016.

Em ambos processos decisórios, os dados pessoais e comportamentais dos cidadãos e cidadãs com perfis no Facebook – dados adquiridos diariamente por esta mídia social por meio das postagens, curtidas, compras, vendas, compartilhamentos e relacionamentos que seus usuários fazem – foram utilizados na criação de campanhas destinadas a manipular os medos e preconceitos específicos de cada eleitor por meio de notícias mentirosas e teorias conspiratórias.

O contundente depoimento da jornalista de The Guardian e a descrição de sua rigorosa investigação jornalística fazem parte do documentário “Privacidade Hackeada” (“Great Hack”, título original), dirigido por Karim Amer e Jehane Noujaim e disponibilizado por Netflix há poucos dias.
Trata-se de uma denúncia Internacional de como Cambridge Analytica e Facebook estão vendendo os dados dos usuários desta mídia social para partidos e grupos de extrema-direita e fascistas em todo mundo, e organizando suas campanhas. O documentário acompanha a saga de um cidadão americano que decide usar as leis do único país que tem jurisdição sobre Cambridge Analytica, o Reino Unido, para recuperar seus dados pessoais e privados. Uma reencenação do mito da luta de David contra Golias.

Os machos adultos brancos, ricos e cristãos por trás desse complô para solapar a democracia em todo mundo não têm qualquer empatia ou compaixão pelas vítimas de suas mentiras, notícias falsas e teorias conspiratórias, sejam estas coletivos ou indivíduos. Eles não se importam se imigrantes sírios, húngaros, senegaleses, magrebinos, venezuelanos, mexicanos, brasileiros ou se muçulmanos e membros da comunidade LGBT são vítimas de discriminações e violências físicas durante essas campanhas e meios desonestos de intervenção nas cenas políticas de diferentes países. Não enxergam essas vítimas como humanas.

Tampouco estão preocupados com a segurança de alguém como a jornalista Carole Cadwalladr. Como diz outro depoente em “Privacidade Hackeada”, o cientista de dados Cris Wylie, ao vice-presidente de Cambridge Analytica, o cristão fundamentalista de extrema-direita Steve Bannon, e aos outros homens brancos, ricos e cristãos com os quais tem sociedade, só interessa destruir as sociedades para depois moldá-las de acordo com sua visão de mundo.

O documentário da Netflix não inclui o caso do Brasil, talvez por ter sido concluído antes do resultado das eleições de 2018. Mas deixa evidente que o tipo de campanha que fez Bolsonaro e o (des)governo que este conduz no Brasil integram essa tarefa global da extrema-direita de dividir e destruir as sociedades para alcançar o poder sem se importar com o sofrimento daqueles construídos, por suas mentiras e insultos, como inimigos a serem abatidos.

Meu depoimento como vítima da campanha suja de Bolsonaro, baseada em mentiras e notícias falsas a meu respeito, e sobre as ameaças de morte que ela gerou contra mim e minha família e que me forçaram a deixar o país para continuar vivo, está em meu novo livro, “O que será” (Objetiva, 2019), já nas livrarias. Aí eu também faço uma reflexão sobre a homofobia como pedra angular do edifício dessa extrema-direita, afinal, gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans são alvos de preconceitos e aversões tanto na classe A quanto na classe C; tanto entre iletrados quanto entre intelectuais; tanto na comunidade dos crentes quanto na de ateus; tanto na direita como na esquerda.

Sendo assim, as campanhas de Cambridge Analytica sempre começam manipulando a ansiedade sexual das maiorias com notícias falsas e teorias conspiratórias em relação à comunidade LGBT; está aí a “ideologia de gênero” para não me deixar mentir.

Mas o que será da democracia após essa denúncia internacional feita por “Privacidade hackeada”? O que será? O documentário nos mostra que o mundo como conhecíamos foi desfigurado pela força da grana a serviço da mentira. A democracia de partidos solidamente estabelecidos está em colapso, assim como o monopólio de grupos exclusivos de meios de comunicação sobre a tarefa de noticiar e produzir sentido.

Os meios de comunicação de massa perderam a força ante a massa de mídias. Os filtros éticos e a empatia construídos por séculos de modernidade cultural estão desaparecendo, e as pessoas hoje se sentem “autorizadas” a perpetrarem racismo, machismo, xenofobia e, principalmente, homofobia nas redes sociais como na vida. Autoridades estão abrindo mão de serem referências de civilização para se apresentarem como porta-vozes da barbárie, como é o caso de Bolsonaro e sua prole. O mundo virou uma ruína dividida.

Tudo isso nos é dito por “Privacidade hackeada”. A vantagem do documentário em relação à experiência real com esse “fim de mundo” é que ele organiza os acontecimentos numa narrativa que nos ajuda a medir a fundura do abismo em que Cambridge Analytica, Facebook e a extrema-direita nos atiraram – e a calcular se é possível ou não escalar até o alto de novo.

Seguramente o mundo não será outra vez como era antes desse complô. Mas talvez haja alguma chance de a democracia, nascida no século IV a.C (antes de Cristo), sobreviver a mais esse inimigo interno engendrado por ela mesma. Sim, por ela mesma: não nos esqueçamos de que a extrema-direita montou seu plano de ataque à democracia depois de ver as manifestações da Primavera Árabe organizadas via redes sociais.

Caso essa reação da democracia não aconteça, George Orwell – homem de esquerda negligenciado por este campo político e cuja imaginação sobre distopias autoritárias foi transformada em realidade pela extrema-direita – terá razão em sua ficção profética: “O próprio conceito de veracidade está desaparecendo. Mentiras tornar-se-ão história”.

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